O que é a "esquizo-análise"?

 


1) Primeiramente eu não expando a tese para além dos limites do trato dos viventes, ou seja, o trato consigo mesmo, embora sei que muitos autores a generalizem; fazem uma esquizo-análise da sociedade, da cultura, da história, etc., e na linguística há um boa razão para tal utilização, mesmo assim, não pertence ao núcleo duro da "teoria", apenas a sua apresentação como "enunciado", por assim dizer. Eu levo mais ao pé da letra, creio ser mais fortemente uma abordagem psicanalítica e no próprio anti-Édipo há alguns trechos que não me deixam mentir, afinal, tanto Deleuze como Guatarri estão se opondo a edipianização e não a psicanálise, escrito dessa forma textualmente.

"A esquizo-análise não se propõe resolver o Édipo, não pretende resolvê-Io melhor que a psicanálise edipiana. Propõe-se desedipianizar o inconsciente para poder chegar aos verdadeiros problemas. Propōe-se atingir essas regiões do inconsciente órfão "para lá de todas as leis", em que o problema deixa de poder ser posto. E por consequência, também não partilhamos do pessimismo de pensar que essa mudança, essa libertação só se pode fazer fora da psicanálise. Pensamos, pelo contrário, que é possível dar-se uma reversão interna que transforme a máquina analítica numa peça indispensável do aparelho revolucionário. Mais: já há mesmo condições objetivas para isso."  (O Anti-Édipo p. 85)

2) O capitalismo é esquizofrênico — esse é o ponto de partida da esquizo-análise —, é autodestrutivo, irracional, mas nessa autodestruição ele cria "axiomas" que tentam contrarrestar a sua própria pulsão de morte, ele cria razão (técnica, intelectual, etc.) para confrontar a irracionalidade (social, econômica, etc.) por ele mesmo criada. Deleuze e Guatarri mostram isso até mesmo através de uma leitura bem peculiar do subdesenvolvimentismo de Samir Amin, quer dizer, constatando que nos países subdesenvolvidos o capitalismo se "esquizofreniza" ainda mais profundamente. Assim, da mesma forma que o capitalismo cria a classe per se revolucionária: o proletariado, ele combate tal classe para não ser apunhalado. Então, o esquizofrênico é equivalente ao proletário (não só ele, o maníaco, o depressivo, o autista, o catatônico, o suicida, o drogado, etc.), são todos criados pelo capitalismo e que o capitalismo tenta lhes "reajustar" (reterritorializar) para servirem de agentes funcionais das suas estruturas (a esquizo-análise é estruturalista). Isso se dá por meio da castração e racalcamento, ou seja, da psicoanálise edipiana/freudiana que classifica como adoecimento diversas questões psico-sociais-comportamentais. Para o esquizo, tal como para um Karazamov, despencar no abismo é o que há de mais belo, inibir esse ímpeto é castrá-lo de seu projeto revolucionário.

"De fato, o que queremos dizer é que o capitalismo, no seu processo de produção, produz uma formidável carga esquizofrênica sobre a qual faz incidir todo o peso da sua repressão, mas que não deixa de se reproduzir como limite do processo. Porque o capitalismo nunca para de contrariar e de inibir a sua tendência, sem deixar, no entanto, de se precipitar nela; não para de afastar o seu limite sem deixar ao mesmo tempo de tender para ele. O capitalismo instaura ou restaura todos os tipos de territorialidades residuais e factícias, imaginárias ou simbólicas, sobre as quais tenta, o melhor que pode, recodificar e fixar as pessoas derivadas das quantidades abstratas. Tudo volta a aparecer — os Estados, as pátrias, as famílias. E é isto que torna o capitalismo, na sua ideologia, "a pintura matizada de tudo aquilo em que se acreditou". O real não é impossível, o que é, é cada vez mais artificial." (Ibid, p. 38)

(...)

"A esquizofrenia não é a identidade do capitalismo mas, pelo contrário, a sua diferença, o seu desvio e a sua morte. Os fluxos monetários são realidades perfeitamente esquizofrênicas, mas que só existem e funcionam na axiomática imanente que conjura e repele essa realidade. A linguagem dum banqueiro, dum general, dum industrial, dum quadro ou dum ministro é uma linguagem perfeitamente esquizofrênica, mas que só funciona estatisticamente na axiomática uniformizadora que a põe ao serviço da ordem capitalista." (Ibid, pp. 256-257)

3) A psicoanálise esquizo acredita ser o "inconsciente" a própria consciência e a consciência jamais ser atingível. Portanto, um sujeito passando por uma crise de delírio não está inconsciente, ao contrário, está pleno de suas faculdades mentais, é como dizem popularmente "a bebida muitas vezes revela o verdadeiro sujeito" — diria que Nietzsche concordaria com tal ditado. Ao sentar em um divã, o "sujeito inconsciente" está sendo reprimido. Ele é um sujeito revolucionário, rejeita a normatividade capitalista. Isso é expandido pelos autores para homossexuais, travestis, enfim, tudo que foge do comumente considerado normal. Os autores também assumem as teses do abolicionismo penal, anti-manicomial e do antipunitivismo de Foucault nesse sentido. Em relação a loucura, apenas reproduzem Foucault para cujo "abandono é a salvação", o abandono inclusive familiar, a família é um órgão repressivo em si mesmo, é apenas uma das várias instituições fascistizantes e reacionárias. Portanto, o leque do esquizo-revolucionário é quase infinito (diria que é infinito, não me recordo de nenhuma ressalva, seja no livro 1 ou 2). Ele é o "Corpo sem Órgãos (CsO) que resta quando tudo lhe foi retirado." (Mil platôs, p. 188)

"A loucura deixaria de existir como loucura, não porque se tivesse transformado em "doença mental", mas porque receberia o concurso de todos os outros fluxos, inclusive o da ciência e o da arte — já dissemos que ela só é chamada loucura e aparece como tal porque está privada desse concurso, reduzida a ser a única testemunha da desterritorialização como processo universal. E é esse seu privilégio indevido, e acima das suas forças, que a enlouquece. Era dentro desta perspectiva que Foucault anunciava uma idade em que a loucura desapareceria, não apenas porque fosse vertida no espaço controlado das doenças mentais ("grandes aquários mornos"), mas porque, pelo contrário, o limite exterior que ela designa seria transposto por outros fluxos incontroláveis, arrastando-nos com eles. Devemos pois dizer que não se irá nunca longe demais no sentido da desterritorialização: ainda não viram nada deste processo irreversível. E quando considerarmos o que há de profundamente artificial não só nas reterritorializações perversas, mas também nas reterritorializações psicóticas hospitalares ou nas reterritorializações neuróticas familiares, gritaremos: mais perversão! mais artifício!, até que a terra se torne tão artificial que o movimento de desterritorialização crie necessariamente por si mesmo uma nova terra." (Ibid, pp. 335-36)

4) O desejo é o elemento central e de defesa incondicional da esquizo-análise. Não somos sujeitos, nem identidades, nem "Eus", somos máquinas desejantes. Todos os desejos são revolucionários pois são contrários àquilo que há, são criações sempre novas, são um porvir. Tudo que pensamos ou executamos tem como único determinante o desejo e ele não pode ser explicado ("significante"), apenas vivido em toda sua integralidade (é a vontade de potência nietzscheniana em outros termos.)

"A esquizofrenia como processo é a produção desejante, mas tal como ela está no fim, como limite da produção social determinada pelas condições do capitalismo. É esta a nossa "doença", a doença dos homens modernos. O fim da história não tem mesmo outro sentido. Nela se reúnem os dois sentidos do processo, ou seja, o processo como movimento de produção social que vai até ao fim da desterritorialização, e como movimento da produção metafísica que arrasta e reproduz o desejo numa nova Terra. "O deserto cresce ... o sinal está próximo ... ". O esquizo leva consigo os fluxos descodificados, fá-los atravessar o deserto do corpo sem órgãos onde instala as suas máquinas desejantes e produz um perpétuo escoamento de forças atuantes. Atravessou o limite, a esquize que mantinha a produção de desejo sempre à margem da produção social, sempre tangencial e sempre repelida. O esquizo sabe partir: para ele, partir é tão simples como nascer ou morrer. Mas, e estranhamente, o esquizo viaja sem sair do mesmo lugar. Não fala de um outro mundo, não é de outro mundo: a sua viagem, ainda que espacial, é uma viagem em intensidade, em torno da máquina desejante que aqui se erige e aqui fica. Porque aqui é que é o deserto propagado pelo nosso mundo, e também a nova terra e a máquina que ronca, em torno da qual os esquizos giram, planetas de um novo sol. Estes homens do desejo (que talvez ainda nem existam) são como Zaratustra: atravessaram sofrimentos inacreditáveis, vertigens e doenças. Têm os seus espectros e têm que reinventar todos os gestos. Mas um homem desses produz-se como homem livre, irresponsável, solitário, alegre, e enfim capaz de fazer e dizer algo de simples em seu próprio nome, sem pedir autorização, desejo a que não falta nada, fluxo que atravessa as barragens e os códigos, nome que já não designa nenhum eu. Deixou simplesmente de ter medo de enlouquecer. Vive-se como a sublime doença que nunca mais o atingirá. Para que é que serve, ou serviria, um psiquiatra?" (Ibid, pp. 136-137)

O que se conclui? Bom, eu concluo que é uma normalização das características mais desumanizadas e desumanizantes gestadas neste tipo de sociedade em que se assume como "solução" o aprofundamento dessas características na vã esperança de vencer algo pelo cansaço dos "adversários", atingindo, tão somente, o sofrimento como um glamour, quase como um novo tipo de personalidade, aquele que sofre ad infinitum. Não obstante, não se trata de propôr como solução o generalismo simplório do Édipo, seria no mínimo birrento tal ação. O que deve-se fazer na esfera que impacta o estado mental dos homens é buscar a transformação da sociedade em que vivem, em relação aos sofrimentos psíquicos que enfrentam eu seria leviano se fizesse qualquer proposição com meu limitadíssimo conhecimento sobre o tema.

Retomando a esquizo-análise, resta dizer que não há muita novidade do ponto de vista teórico, é perceptível que se trata de uma revitalização do conceito de angústia do Kierkegaard com outra "linguagem" e em um estágio da sociedade já plenamente industrial e saindo das duas grandes guerras mais mortais da história da humanidade. Com algumas diferenças, é claro, Kierkegaard era um religioso, ele fazia uma exaltação dessa angústia generalizada quase como se fosse uma penitência para sermos aceitos no reino dos céus. Além disso, não considerava (ainda à época) as colônias e semi-colônias como em um estágio perfeito de desenvolvimento o que era qualificado através da quantidade de angústia presente na sociedade. Uma sociedade criança (inocente), como as africanas (à época!), era muito atrasada pois havia pouca angústia, já a sua terra, a Dinamarca — bem como a Europa ilustrada — era muito avançada pois a angústia já tomava tudo e todos. 

Escrevia o dinamarquês "na inocência o homem é meramente um animal" pois só é possível sair do estado animalesco através da liberdade e só o ser humano pode alcançar a liberdade, só que a liberdade é uma possibilidade e a angústia é a única capaz de criar essa possibilidade ("ser-capaz-de"). Veja que não destoa da "esquizo-análise" no central, apenas em algumas minúcias. O angustiado, para Kierkegaard, era o melancólico, o esquizo é também um melancólico, entre outros sujeitos "anormais" (no sentido foucaultiano da expressão). Por se tratar de um "rizoma", de "mil Platôs", a esquizo-análise aparenta um "a-dogmatismo" não presente em Kierkegaard, porém, não passa de uma aparência, é um simulacro de combate a um suposto despotismo em troca de um novo despotismo, o despotismo da "fuga".

Mas, afinal, há algo de útil na esquizo-análise? Como prática definitivamente não, porém existem algumas conclusões dos autores que são interessantes de se considerar, embora sejam obviedades assumidas acriticamente, por exemplo:

"Não há oposição entre central e segmentário. O sistema político moderno é um todo global, unificado e unificante, mas porque implica um conjunto de subsistemas justapostos, imbricados, ordenados, de modo que a análise das decisões revela toda espécie de compartimentações e de processos parciais que não se prolongam uns nos outros sem defasagens ou deslocamentos. A tecnocracia procede por divisão do trabalho segmentário (inclusive na divisão internacional do trabalho). A burocracia só existe através de suas repartições e só funciona através de seus “deslocamentos de meta” e os “desfuncionamentos” correspondentes. A hierarquia não é somente piramidal: o escritório do chefe está tanto no fundo do corredor quanto no alto da torre. Em suma, tem-se a impressão de que a vida moderna não destituiu a segmentaridade, mas que ao contrário a endureceu singularmente." (Mil platôs, pp. 255-256)

Não há dúvidas de minha parte que o sistema capitalista é o pior inimigo da estabilidade mental dos homens porque é o pior inimigo da estabilidade em si, por isso, os defensores desse sistema, entendendo-o como a forma final da perfeição etérea, tentam das mais cínicas maneiras transformar o regresso em progresso, confrontando tudo que era como imperfeições, sacralizando tudo o que se tornou como o que sempre deveria ter sido e toda e qualquer tentativa de mudança como abominável no plano do bem estar mental nesse caso.

De maneira geral, é fundamental não replicar as sandices da esquizo-análise em nenhum sentido, conscientemente evitá-las. Seu projeto é a decadência bem aos moldes sprenglerianos, a decadência de tudo aquilo que se encontra, de fato, oprimido em um sistema historicamente constituído e que exibe sua potência justamente através desses artistas da miséria e suas engenhosas obras de crítica culposa.

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