O mito da consciência autônoma
Desde já, peço perdão por eventuais erros no texto já neste momento estou internado no hospital por alguns pequenos problemas de saúde e como o tempo livre aqui é infinito, esse texto também foi escrito durante minha estádia. Eu poderia soltar ele em alguns dias depois de voltar para a casa e fazer uma avaliação mais detida, porém, os textos que público aqui não tem qualquer pretensão exceto a auto satisfação e acredito que esse me satisfaz, preencheu o critério principal.
"Todo o material que compõe o conteúdo do sonho se origina, de alguma forma, da experiência vivida, sendo assim reproduzida e lembrada durante o sonho — isso, pelo menos, pode ser considerado um fato indiscutível. Contudo, seria um erro presumir que tal conexão entre o conteúdo do sonho e a vida desperta deva surgir prontamente como um resultado óbvio da comparação. Ao contrário, ela deve ser cuidadosamente buscada e, em muitos casos, permanece oculta por um tempo considerável. A razão para isso reside em uma série de peculiaridades exibidas pela capacidade de memória [Erinnerungsfähigkeit] nos sonhos, que, embora geralmente observadas, até agora carecem de uma explicação. Vale a pena examinar essas características em detalhes." Die Traumdeutung, S. Freud, 1911, p. 6 (tradução minha)
Embora deste trecho possamos extrair coisas comumente óbvias, nem sempre foi assim. A oniromancia, antiga ciência que tratava da interpretação dos sonhos, não fazia qualquer conexão desses com a realidade, e se fazia era de maneira secundária.
Os sonhos são estudados desde o Egito Antigo por se tratar de um daquelas experiências universais inescapáveis à existência humana que foram tratadas praticamente por todos aqueles que se dispuseram a estudar as questões humanas. Não obstante, é apenas em Aristóteles que os sonhos passam a ser tratados um tanto mais materialmente, deixando um pouco da névoa mística para trás. Aristóteles estabelece que os sonhos são "uma espécie de apresentação", legada por aquilo que foi capturado quando estamos acordados através dos "órgãos sensoriais", e que nos sonhos se manifestam como apresentações de impressões. Podemos, com razão, contra-argumentar as conclusões do grego de Estágira, porém temos que exaltar sua tentativa de romper com o misticismo — esse, aliás, que segue até mais mistificado por toda a Idade-Média até meados do século XVIII.
Feito este prelúdio um tanto diletante, vamos agora ao que interessa.
Na Grécia Antiga, houve um período em que várias relações sociais modernas puderam ser, digamos, replicadas com certas especificidades típicas da modernidade como, por exemplo, na propriedade, empréstimos, comércio sob certa base monetária, contratos, etc. Tais relações, como era de se supor, tiveram fortíssimo impacto no desenvolvimento filosófico daqueles colossais pensadores gregos, sobretudo nos desenvolvimentos mais universais e abstratos, e a extensão dessas formulações, não é preciso dizer, alcança os nossos dias ainda com muita vitalidade. Meu palpite para isso é a curta e localizada amostragem, reduzindo ao máximo as variáveis e possibilitando o investigador se debruçar sobre dados mais "puros", fazer uma análise dessas relações nos dias de hoje, levando em conta a vigência global, seria um trabalho de maluco. Ellen Wood, entre outros marxistas, mesmo não marxistas, discutem exaustivamente essas "relações modernas" na Grécia Antiga, na verdade isso é um assunto batido; é impossível contestar sua precisão, por incrível que pareça, é um consenso, pelo menos entre autores minimamente sérios: os aparentemente clarividentes filósofos gregos estavam apenas experienciando, naquelas condições bem rudimentares, um pouco da modernidade.
Já na Índia antiga (1500-400 a. C) a mesma coisa aparenta ter se repetido em relação a outras condições modernas, mas nesse caso não passa de aparência.
A passagem dos Vedas (conhecimento) para as Upaniṣads (conhecimento secreto) coincide plenamente com a monopolização do conhecimento pelas novas classes dominantes, que Marx provocativamente define como "o começo da miséria indiana". Mais de dois mil anos depois, durante todo o século 19, houve uma certa obsessão pela Índia em vários pensadores europeus, todos ficaram maravilhados com o fato de supostamente os indianos viverem anos luz a frente em tudo que diz respeito ao individuo, ao poderoso homem isolado tão idolatrado pelos pós-kantianos, ao ceticismo radical que nega a própria realidade, a exaltação do sofrimento, etc., porém, muito raramente se tratavam de coisas literais PARA A ÍNDIA, não há qualquer indício histórico, antropológico ou arqueológico de tal literalidade dos textos.
A título de ilustração: há um antigo mito na Índia do homem que teria nascido de um outro homem, a perfeição da força, Ganapati, assim selava-se o destino do tantrismo que circundava em torno da figura feminina, essa última mais conectada à agricultura pré-Ariana. Não precisa ser um gênio da interpretação para entender que não é sobre o homem individual que está se discutindo aqui, mas sobre o passado e, genericamente falando, sobre a morte do "homem tribal" que, por necessidade, tinha o carácter bastante coletivista e que, por acaso, tinha como representação a mulher, ambos, agora, retratados de maneira negativa (a ampliação da ofensa foi tornar-se parte do insaciável hedonismo ocidental). Escapa ao orientalismo europeu a substância real inspiradora das Upaniṣads — mais por razões ideológicas que qualquer coisa, pois essa captura se deu principalmente pelos alemães, Schopenhauer com mais afinco. É da filosofia indiana que ele tira várias ideias centrais de seu pensamento como a "representação", por essa via, ser o mundo uma representação apenas e não a representação ser um fenômeno que pode ou não esconder algo em suas entranhas, dá às Upaniṣads uma dimensão literal. Também compactuaram com a admiração pela Índia conceitual Hegel, Schelling, uma longa lista de autores, Marx mesmo estuda a Índia intensamente, no seu caso, para entender a realidade por trás dos conceitos.
O que importa destacar é que, seja a potência teórica da Grécia Antiga ou a complexa e interminável filosofia indiana, ambas só são um mistério ou uma genialidade divina para aqueles que acham que pensar é uma atividade transcendental, livre de influências, e não atravessada pela realidade. Tal mentalidade grosseira ainda é bem presente naqueles que realmente acreditam que as loucuras das "ciências" humanas da nossa querida modernidade surgem do nada. O que mudou é a recepção, Aristóteles é tido como gênio, já Deleuze é um esquizofrênico, não discordo de ambas afirmações, a questão é que isso, no máximo, é uma personalização sem valor, o que importa é entender porque pensam como pensam, o que suscita suas ideias geniais ou esquizofrênicas.
Reflita: a realidade e todas as relações sociais parecem cristalinas para você? Nada está minimamente distorcido?
Se é verdade que o real não se vê, o que se vê pode muito bem ser tido como real por inúmeras razões. Se também é verdade que toda ciência seria inútil se pudéssemos enxergar a essência dos fenômenos através de suas aparências, qual a utilidade de uma dita ciência que se limita à aparência? Eu digo, zero, se fosse extinta hoje o sol nasceria amanhã de qualquer forma, porém, estão aí como um efeito colateral do tempo, cumprem seu papel de fuga pois é basicamente o que se tornou as "ciências" humanas modernas, ao estilo esquizofrênico uma interminável linha de fuga. Resta àqueles que vêem esse papel como inútil fazerem um caminho distinto.

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