A criatividade de cinco grandes novelistas

 


Tolstói 

Dostoievski 

Victor Hugo

Balzac

Alexandre Dumas


Como alguém que não acredita em talento como sendo uma dádiva divina inerente a certos homens escolhidos por sei lá quem, eu sempre me questionei como aqueles grandes clássicos da literatura foram feitos, quais os "segredos" dos autores e eu descobri várias coisas que não eram segredos e que a poucos interessa — assim como poucos tem interesse pelos rabiscos de Michelangelo — dizem que perde-se a "magia". Já parou pra pensar que a magia só nos encanta quando acontece e não quando sequer a conhecemos? Portanto, penso que é um receio injustificável.

Para escrever sobre guerra é preciso paz, às vezes, para escrever sobre paz é preciso de guerra, algum tipo de guerra, mesmo que uma guerra interna. O privilégio da ociosidade regrada é o útero dos gênios.

"Um escritor não está trabalhando apenas quando segura uma caneta na mão. Ele precisa permitir-se gestar a obra." A. N. Wilson

Com o parasitismo sem precedentes da aristocracia vegetativa contemporânea, é difícil sequer imaginar uma classe de abastados, privilegiados dedicando suas vidas, suas energias e todos os recursos possíveis e impossíveis para produzir arte, porém, tal coisa já foi o normal e estes grandes novelistas são a prova viva disso.

Tolstói era o mais paciente deles, podia levar meses só para escrever um único capítulo que podia descartar na sequência e reescrever do zero caso não estivesse satisfeito com o resultado final, não à toa Guerra e Paz possui várias versões totalmente diferentes uma da outra. Ele fazia árvores genealógicas de cada personagem com histórias de vida independentes de cada um. Fez uso de bibliografias intermináveis para compor Guerra e Paz, desde livros sobre tática militar, biografias de generais russos e franceses, até livros de arquitetura, medicina, etc. Detestava jornais, dizia que só serviam para desinformar, então seu trabalho jornalístico era todo feito por ele mesmo. 

Tudo para Tolstói era relevante e ele andava (não importava o clima ou hora) pelas ruas tentando captar isso no cotidiano e dar função objetiva para aqueles atos despercebidos, um olhar, um suspiro, uma voz embargada, uma micro-expressão facial, e dar uma história para aquela rachadura na parede, aquele ladrilho mal posicionado numa calçada, ele observava tudo e anotava. Era uma enciclopédia do mundo com uma sensibilidade quase infantil para um barbudo desarrumado.

Balzac era o extremo oposto de Tolstói, não que Balzac não fosse metódico, mas seu metodismo era com pressa. Raramente fazia longos estudos bibliográficos, preferia o que via e como via, mesmo assim, funda vários métodos de documentação para melhorar coesão do fazer novelistico. Também por isso a sua excelência em retratar a sociedade francesa à época com mais precisão que qualquer obra primariamente histórica ou sociológica. 

Costumava passar horas e horas em bordéis, bares e principalmente nos bailes da aristocracia francesa observando cada detalhe, adorava o oculto, o proibido pois eram em si mesmas premissas que incitam a imaginação, mas dizia ser secundário pois preferia criar sociedades por conta própria. Ele não perdia um surto de inspiração por nada, se tivesse inspirado pudia passar mais de 15 horas escrevendo sem parar até a inspiração se dissipar por completo. Essa pressa era justificada, ele prometia tudo para as editoras sem ter nada ainda, o que também lhe fazia cometer muitos erros e ele torturava os editores com seus consertos e readequações intermináveis, sobretudo em relação a Comédia Humana que, como se sabe, é dividida em várias categorias e subcategorias que ele pelejava para encaixar perfeitamente cada história.

Balzac não só tinha plena consciência de que a Comédia Humana era impossível de ser completada como, inicialmente, quando ainda não passava de uma ideia, nem acreditava que iria ser posta em prática. Brincava dizendo que Dumas tinha uma fábrica de romancistas trabalhando para ele enquanto a Comédia Humana era uma fábrica de um homem só. Se tivesse vivido por longos anos talvez nem chegasse perto de encerrar a obra, seria como o projecto Cosmos de Humboldt, mas sem as amarras das exatas, ou seja, interminável.

Dumas privilegiava a teatralidade daquilo que escrevia, portanto, mesmo amante das viagens para locais não muito usuais, não era tão afeito ao "trabalho de campo" e nem leituras de bibliografias imensas por conta própria, tinha ajudantes para esse trabalho mais "científico". Ele gostava mesmo era de "interpretar" aquilo que escrevia de maneira épica. Tinha um braço direito, Auguste Maquet, que ia escrevendo enquanto ele ditava, passava horas ditando como se estivesse num ensaio para uma peça. A teatralidade também lhe fazia ser mais avesso ao real, seja na forma ultra-racionalizada de Tolstói ou na forma fixa e crua de Balzac. Hummings (biógrafo de Dumas) dirá que a história para Dumas é como a ciência para Zola, somente um semblante de veracidade para dar movimento à sua ficção. Durante anos, pairou uma suspeita de que Maquet era o verdeiro autor das obras de Dumas, até descobrirem pilhas e mais pilhas de escritos com rascunhos e anotações feitas com as letras de Dumas, que tinha um modo de escrita bem particular: extremamente rápido e sem quaisquer pontuações, de fácil identificação e de difícil compreensão sintática. 

Quando Victor Hugo foi exilado por se opôr ao golpe do 18 Brumário de Napoleão III, ele mudou drasticamente a sua visão de mundo porque lidou com algo inimaginável para si: o sofrimento humano, seja na própria pele ou observando em volta, o impacto foi tanto que ele escrevia que o exílio da França lhe aproximou da humanidade. Era adepto dos desenhos para retratar cenas ou mesmo sentimentos que via como inspirados. Para ele, tudo devia conter uma forte crítica moral por trás, mesmo que não explicita. 

Hugo era organizado ao extremo, cada parágrafo tinha uma razão de ser específica e naquele momento exato, o caos era inexistente em suas composições artísticas e ele se isolou completamente para garantir uma precisão "matemática" de sua obra principal (Os Miseráveis). Tal qual Tolstói, lia bibliografias sobre tudo dependendo do tema que queria tratar, desde a economia parisiense até o funcionamento dos presídios.

Um fato interessante (que não tem nada a ver com processo criativo) foi o velório Victor Hugo, uma das maiores aglomerações da história para ver um defunto de um intelectual, os números variam, mas foi na casa dos milhões. Os franceses reconheceram a perda de um grande intérprete de seus sofrimentos invisíveis.

Dostoievski e Victor Hugo possuem certas semelhanças nos temas tratados, embora em Dostoievski não há crítica alguma. Além disso, ele era extremamente caótico na composição de suas novelas, começava pelo final, escrevia o começo quando já estava no meio, raramente planejava qualquer coisa, uma loucura que lhe obrigava a ser o gênio da improvisação, a primeira página em branco que se abria de frente para ponta de sua caneta bastava para ele começar a escrever. Apesar disso, Dostoievski era bastante zeloso com seu caos e se recusava a fazer reparos demandados pela editora, os reparos, se viessem, seriam por sua vontade. 

Escrevia nos episódios em que enfrentava seus demônios psicológicos das formas mais intensas, unido às crises de epilepsia, e ele abraçava todos sem julgamentos nas suas histórias — assim rompendo com o "herói supérfluo" (ícone da literatura russa do século XIX) e fundando o "homem do subsolo". Por vezes, os tormentos eram tão avassaladores que ele era obrigado a parar de escrever.

Todos os seus momentos na sarjeta lhe geraram inspirações para suas obras e seus personagens, então ele revivia muito as próprias memórias durante suas elaborações, o que provavelmente não era nada agradável. É possível dizer que Dostoievski escrevia de dentro para fora, ao lê-lo, você está lendo a mente de um misantropo perturbado com um talento inigualável para transformar perturbações em histórias complexas, nos dizeres de um de seus biógrafos (Joseph Frank) "sua capacidade de intuir essas sínteses de emoção e ideologia constitui grande parte de seu gênio particular como romancista."

Do ponto de vista criativo, de longe, Dostoievski é o mais interessante de se ler sobre porque era um ferrado, procurado pela polícia, achincalhado por todos os grandes escritores da época que se propunham a falar sobre ele e ainda tinha todos os problemas psicológicos conhecidos pelo homem. Os demais eram privilegiados de todas as formas, mesmo quando atingidos por infortúnios, pareciam apenas percalços da vida. E isso não é um juízo de valor das obras, não é a proposta do texto — nem eu teria a sensibilidade artística para analisar as obras destes gênios, por sinal.

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