Escravidão em Africa e o Brasil Paralelo

   O Brasil Paralelo faz um revisionismo histórico grotesco, mas, vamos lá, havia escravidão em África? É um debate que perpassa uma infinidade de bons autores e correntes: egipitólogos, africanistas, especialistas em mundo islâmico, historiadores, sociólogos, subdesenvolvimentistas (no geral, discípulos do Gunder Frank), etc., mas é consenso que escravidão, nos termos europeus, não houve por muito tempo.


A África era cheia de "reinos" desde muito antes dos europeus lá chegarem e, como mostra Walter Rodney, não necessariamente eram impotentes ao poderio europeu, só escolheram o ser, não de maneira arbitrária, mas pelos ditames da luta de classes, afinal, todos os "reinos" eram sociedades de classes. Faziam negócios. Os europeus ofereciam produtos diversos (principalmente armas) em troca de mão de obra. Demorou muito para os europeus entrarem África adentro pois não havia necessidade, os muçulmanos que lá dominavam já mantinham, em algum sentido, o que seriam "cativos" (para os europeus) desde 600 d. C. Os europeus ficavam apenas na costa ocidental, os sultanatos, califados, imanatos muçulmanos vendiam prisioneiros (frutos de guerras e pilhagem) para os reinos do ocidente e esses vendiam para os europeus. 

Toda a dinâmica interna da África, de 1500 a 1800, era voltada para exportar mais e mais escravos, quer dizer, os reinos e príncipes mercadores "cultivavam" mulheres e crianças para "colher" homens que eram a maior demanda dos europeus (verifica-se um déficit de mão de obra masculina dentro da África nesse período, o que alterava consideravelmente a importância da mulher naquelas sociedades, isso gera outras leviandades identitárias, mas esse é outro debate). A escravidão, no sentido europeu, só pode ser observada primeiramente em Futa Jalom (atual Guiné), início do século 18 e era muito residual porque obviamente ainda era muito mais rentável para a aristocracia exportar. A escravidão (novamente, no sentido europeu) dentro da África só se torna dominante quando começa a abolição fora, no início do século 19 — enquanto no Brasil se assinava a lei Áurea, 45% da população do Quênia, por exemplo, era escrava — e ela chega até meados de 1930, cujo um dos epicentros era o império de Menelik II, na Etiópia, algumas aberrações, no papel, chegam até o final do século 20, caso da Mauritânia. 

A escravidão em África não era uma questão de raça, nem secundariamente — aqui, o Brasil Paralelo está correto, mas é uma obviedade —, era uma questão de linhagem! Uma vez escravo todos que tivessem parentesco com esse, seriam escravos ou sujeitos a escravidão, em alguns locais apenas a terceira geração do liberto seria totalmente livre da escravidão, significa que uma neta de uma filha de um escravo liberto estaria livre da escravidão, não sua mãe ou seu avô. A racialização (omitida pelo Brasil Paralelo) só começa a ser produzida de maneira sistemática durante os processos abolicionistas, é uma ideologia objetiva e plenamente europeia: vocês estão libertos, mas são inferiores, voltem às plantações, minas, etc., e agora equiparando todos, para isso, os europeus redefinem as aristocracias, de maneira geral.

O que levou à guerra dos impérios europeus (capitaneados pelos britânicos e franceses) pelo fim da escravidão em África foram os prejuízos com revoltas de escravos que se multiplicavam (agora já escravos totalmente no sentido europeu). Os escravos rebelados queimavam plantações, saqueavam, faziam grupos armados, eram um perigo social constante, por fim, acabavam cessando o fluxo de matérias primas destinadas ao velho continente; então os europeus decidiram enfrentar os antigos impérios escravistas aliados locais a partir do final do século 19, ou seja, foi o velho pragmatismo (com a Bíblia debaixo do braço, que justificou a escravidão e agora justificava a libertação, só pra não perder o costume). E o Brasil Paralelo omite isso tudo, senão, enaltece a suposta benevolência dos europeus.

Enfim, à resposta do primeiro parágrafo, havia escravidão em África? Depende da época, durante o trafico transatlântico havia uma servidão (na ausência de terminologia melhor) de maneira generalizada. Não dá para chamar de escravo, nos termos mercantilistas, um indivíduo que tem direito à terra, casamento, ascensão militar (caso dos achikundas) etc., que não é uma coisa descartável que fica trancada num cativeiro. Chegando nas Américas, esse servo se defrontava com uma posição inferior a de um equino. A escravidão, no sentido europeu, só era "exercida" a partir de guerras (a escravização dos derrotados) — em grande parte incentivadas pelos europeus para suprir a própria demanda por mão de obra (também omitido pelo Brasil Paralelo) — e como punição aos infratores das leis locais, por exemplo, cometer adultério no império Axante poderia levar um indivíduo direto para as mãos dos europeus. 

O que leva os reacionários a fazer esse revisionismo? O Brasil Paralelo trabalha contra a lógica da "África Mágica", criada ao longo das ultimas décadas por várias figuras intelectuais idolatradas nas academias que não passam de garveyanos identitários desprovidos de análise histórica (quando não megacionistas da historiografia), logo, é relativamente fácil de lhes refutar com a história, mas é um revisionismo podre, cheio de omissões decisivas e que validam outras tantas ficções igualmente deletérias, sem contar a premissa, que é abjeta: se os africanos escravizavam, por que os europeus não poderiam? Não problematizam a escravidão!!! Eu não esperaria menos.


ps: coincidentemente, hoje pela madrugada, enquanto escrevia esse texto curtíssimo, li um texto recente publicado no blog Outras Palavras que repete vários dos mitos sobre a África que o Brasil Paralelo efetivamente refutou. Salvo engano, é uma resenha de um livro que cobre os últimos 600 anos do continente e, pelo que entendi, parte da premissa de que as sociedades africanas foram divididas pelos europeus. Eram sociedades de classes há mais de um milênio antes dos europeus, como se divide sociedades de classes? Estão me dizendo que o Império de Mali não tinha divisões? Nem a interpretação histórica mais tosca constataria isso! A verdade é revolucionária, mas quando ela é ignorada por pretensos intelectuais, acaba tendo função nas mãos dos mentirosos. O livro me parece horrível pelo que me foi apresentado na resenha. Sou um entusiasta sobre a história da África, não sou especialista, mas também não sou analfabeto para não notar linhas de análise horrorosas. Quando essas colocam o marxismo no meio eu já ligo o sinal vermelho e não é pra menos. A absoluta maioria das "análises marxistas" contemporâneas não são marxistas e não raramente são anti-marxistas, minha dúvida é o que essa gente entende por marxismo? Essa é uma dúvida grande!

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