A morte no labirinto lulista
"Libre de la memoria y de la esperanza, ilimitado, abstracto, casi futuro, el muerto no es un muerto: es la muerte." J. L. Borge
O único meio pelo qual o povo brasileiro protesta em escala nacional é através do voto, graças a desmobilização que já dura décadas — o povo cubano, por exemplo, vai às ruas. E o povo vota — quando vota (recordemos as barulhentas abstenções) — invariavelmente em figuras que fogem do padrão, sejam novatos ou subversivos demagogos. Quando a chamada esquerda não captura essa brilhante ojeriza contra o padrão, que é hediondo, ela merece todas as derrotas. Eu não me comovo e nem me movo pelas lamúrias de quem se encontra na contramão da vontade popular.
Todas as vezes que a porcamente definida "esquerda" escolhe a defesa da ordem, ela escolhe a penúria das massas, em todos os níveis imagináveis e inimagináveis. Ela escolhe a "irracionalidade completa", nos dizeres de Ruy Mauro Marini, que é o capitalismo dependente que não encontra nenhuma outra razão de vida senão a morte.
Os ditos autoritários possuem programa, doutrina e uma perigosa radicalidade que encontra adesão das massas. Possuem símbolos que só podem significar algo quando ancorados por uma força política. Simulam um patriotismo, mas Euclides da Cunha já nos alertava "ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo" e não poderia ser mais preciso, embora distante na história. Mas o que possuem seus adversários? O rito fúnebre do morto, da morta democracia, e é um rito católico já despido das vestes outrora hereges da teologia da libertação, que jamais encontrou tal heresia em nossos padrecos nacionais que seriam tidos por Gustavo Gutierrez, no auge de sua rebeldia, como adversários.
Estamos em um labirinto que foi produto de escolhas objetivas de uma esquerda que há muito já se desvencilhou de qualquer rebeldia e busca apenas evitar que transbordem as lágrimas do nosso vale e isso se manifesta na defesa da democracia contra o autoritarismo, a defesa do "menos pior" [menos e pior para quem?].
A tese central na defesa do governo Lula (mais uma vez, compartilhada por toda a esquerda) é que, "com todos os defeitos", diz o conto do vigário, "Lula é um democrata, os protofascistas atentam contra a democracia e, assim sendo, podem instaurar uma espécie de Estado de exceção que vai nos impedir de criticar, de se manifestar, de fazer oposição." Reparem que o labirinto não tem saída. Nossa crítica, nossas manifestações, nossa oposição aqui e agora nunca pode ir até o fim com o prejuízo de minar um governo democrata e isso levar a um autoritário. Não tem nada mais rasteiro, mas é o galho que a esquerda em sua totalidade está pendurada há dois anos e pretende ficar mais dois. Também, em si mesma, essa posição é uma garantia que nenhuma árvore fará sombra ao Lula exceto aquelas que o próprio eventualmente plantar, afinal, de outra forma, lideranças só podem surgir da práxis e já está explícito que toda a práxis será limitada, não pode descambar para o radicalismo que, por consequência, teria que fazer uma oposição aberta ao governo e, claro, a própria democracia.
É um cálculo grotesco, mórbido, vazio porque o povo encontra-se ausente, quando muito, aparece como enfeite e não protagonista que é. Felizmente o povo não precisa da esquerda, aliás, não precisa de nada exceto a si mesmo, é uma força revolucionária e espero — e torço por isso — que se erga novamente contra a democracia que lhe condena todos os dias com a promessa lúdica de ser "superior" ao "autoritarismo" de papel.
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