Duas breves notas sobre Althusser
Empírico-idealismo contra a História
Popper via a história como passível de objetividade desde que empiricamente experimentável. Logo, as milhares de páginas de Gibbon (ex) sobre a Inglaterra, América, Império Romano poderiam tratar da realidade pretérita desde que houvesse algum meio de testar cada trecho das obras. Certamente Popper via como verdadeiras as descrições dos artefatos e peças de arte, afinal, várias ainda resistem e se pode avalia-las e provar o que foi descrito por Gibbon, mas o resto teria para Popper o valor de um romance, seriam no máximo pontos de vista supostamente impossíveis de serem verificados. E não poderia ser diferente, para Popper, só é cognoscível a história de coisas muito pequenas e particulares porque tende a haver mais meios de testa-las, diferente dos grandes acontecimentos cheios de contradições. Althusser, entretanto, via isso com bons olhos, ou seja, esse espaço vago onde o empirismo não alcança, mas, por outro lado, Althusser não acreditava numa história real, objetiva, exterior ao homem, a história seria produto da teoria, de uma teoria específica, claro, materialismo histórico, todas as explicações históricas fora disso seriam ideologias. Então as obras do Gibbon não estariam tratando de fatos históricos porque Gibbon obviamente nem poderia usar um "método" histórico fundamentado quase um século após sua morte, já as citações de Gibbon feitas por Marx em diversos trechos de'O Capital, são verdadeiras, suponho, ou não, afinal
"O que eles [estudiosos de'O Capital] não viram é que a teoria "abstrata" da economia política é a teoria de uma região que pertence organicamente como região (nível ou instância) ao próprio objeto da teoria da história. O que eles não veriam é que a história figura em O Capital como um objeto da teoria e não como um objeto real, como um objeto "abstrato" (conceitual), e não como um objeto concreto-real; e que os capítulos onde Marx aplica o primeiro grau de um tratamento histórico, seja ele às lutas pela redução da jornada de trabalho, ou à acumulação capitalista primitiva, remetem à teoria da história, à construção do conceito de história e suas "formas desenvolvidas", a teoria econômica do modo de produção capitalista é uma certa região dela." (Para ler o capital p. 128) se não ficou claro "Qualquer "economia política" que vá "às coisas mesmas", isto é, ao "concreto", ao "dado", sem construir o conceito de seu objeto, permanece, queira ou não, prisioneira nas redes de uma ideologia empirista e sob a ameaça constante do ressurgimento de seus verdadeiros "objetos", isto é, de seus objetivos (seja o ideal do liberalismo clássico, ou mesmo de um "humanismo" do trabalho, mesmo socialista)." (Idem, P. 198) Por fim "a História é um imenso sistema natural-humano em movimento e o motor é a luta de classe. A História é um processo e um processo sem sujeito. A questão sobre como "o homem faz história" desaparece por completo. A teoria marxista rejeita isso de uma vez por todas; envia para seu local de nascimento: a ideologia burguesa" (Essays, p. 51)
De maneira ainda pouco mensurada (se é que dá para mensurar tal coisa), mas claramente revolucionária, Marx bagunçou tanto a filosofia com a união de todas as disciplinas nos seus devidos lugares cumprindo seus devidos deveres sob os auspícios da realidade histórica, roubando os milenares superpoderes dos filósofos, que, após Lenin, com raríssimas e elogiosas exceções, a maioria dos "marxistas" são ipsis litteris anti-marxistas, e os positivistas, no afã de resgatar os "fatos" das garras do marxismo, optaram pela saída caduca do empirismo puro. Ambos estão na mesma trincheira da contra-revolução, não à toa as aparentes contradições que possuem se evaporam no ar quando analisamos com cuidado.
Vale deixar registrado uma fala de um anti-marxista convicto, Jean-Paul Sartre, à uma revista, em 1971, tratando do tema:
"Por trás da história, é claro, é o marxismo que é atacado. A tarefa é criar uma nova ideologia: a mais recente barreira que a burguesia pode erguer novamente contra Marx. Ideólogos burgueses são conhecidos por contestar a teoria marxista da história em nome de outra teoria. Por exemplo, Toynbee produziu a história das ideias. Com Spengler, o progresso da civilização foi representado na imagem de um processo orgânico. Com Camus, encontramos uma denúncia do nonsense e do absurdo que é a história "cheia de som e fúria". Mas todas essas pseudo-histórias foram abortadas porque os verdadeiros historiadores nunca as retiveram. Um historiador hoje não pode ser comunista. No entanto, ele sabe que a história séria não pode ser escrita sem colocar no nível primário os elementos materiais da vida dos homens, as relações de produção e práxis — mesmo que ele pense, como eu, que acima dessas relações as "superestruturas" constituem regiões de relativa autonomia. À luz desta obra, todas as teorias burguesas da história aparecem como imagens enganosas e mutiladas. Não se pode inventar um novo sistema que não mutile de uma forma ou de outra todo esse conjunto de condicionamentos condicionados. Assim, incapazes de "superar" o marxismo, eles tentam suprimi-lo. Como tal, a história é incognoscível: toda teoria da história é por definição "doxologia", para usar o termo de Foucault. Recusando-se a justificar as transições, eles oporão à história, como o domínio da incerteza, a análise de estruturas que sozinha permite a verdadeira investigação científica." (Replies to Structuralism: An Interview with Jean-Paul Sartre)
Althusser e o stalinismo
Todos aqueles que já leram Althusser e outros autores ditos marxistas pós-stalinismo conseguem notar uma característica única e marcante no francês: a frequente menção aos trabalhos "teóricos" de Stalin e, por vezes, Mao Zedong, algo que outros autores simplesmente descartam. Isso ocorre por diversas razões, uma delas é a luta que Althusser trava contra o que chama de "humanismo socialista" e aqui temos que entender humanismo em dois sentidos: o humanismo moralista, aquele típico da social-democracia que quer mitigar a dor dos pobres e o sofrimento humano, e um segundo mais profundo que é o humanismo no sentido de dar aos homens o poder sobre a história. É impossível não discordar do primeiro não à toa ele migra da social-democracia — que sabemos que possuia um caráter bastante radical na primeira metade do século XX — diretamente para as esferas de Estado capitalistas na forma de políticas públicas compensatorias. Entretanto, o que isso teria a ver com Stalin? As críticas ao stalinismo obviamente eram eivadas desse humanismo à época, então, para Althusser, os expurgos e repressões de todos os tipos que ocorreram na União Soviética stalinista tinham um caráter crítico a esse humanismo, no plano "teórico" claro, no plano "físico" foram erros.
O segundo ponto, digo, o humanismo entendido como ação dos homens na história, parte daquele esquematismo que Althusser e Stalin compartilham: "base-superestrutura". Stalin escrevia que a base cria sua própria superestrutura (e é preciso deixar claro que base e superestrutura no entendimento de Stalin), mas isso não se dá de imediato, há necessidade de uma constante luta de classes para eliminar a superestrutura antiga, mas que luta? Toda luta de um estado socialista burocrático é luta de classes. Um aparelho estatal de um Estado socialista que oprime uma manifestação está efetuando a luta de classes porque essa manifestação seria um resquício da superestrutura capitalista e o Estado em questão obviamente faria parte da nova base prenhe de uma nova superestrutura. Vemos (ou, nesse caso, não vemos) o sujeito oculto em todo o processo (palavra que Althusser odeia), é base-superestrutura socialista contra base-superestrutura capitalista (ou feudalista, no caso de Stalin quando trata do desenvolvimento das forças produtivas). Os "sujeitos" entram nas relações, sejam elas quais forem, apenas como meros "portadores" de funções, "apoiadores", Träger: "se por acaso se tentasse reduzir essas relações de produção às relações entre homens, isto é, às "relações humanas", distorceria-se o pensamento de Marx (...) as relações de produção (como as relações sociais, políticas e ideológicas) são irredutíveis a qualquer intersubjetividade antropológica, pois não combinam agentes e objetos senão em uma estrutura específica de distribuição de relações, lugares e funções, ocupadas e "conduzidas" por objetos e agentes de produção." (Para ler o Capital, p. 195). Logo, o esquematismo base-superestrutura de Stalin cai como uma luva no anti-hamanismo de "segundo tipo" do Althusser.
É preciso dizer que esse brevíssimo texto foi somente parte resumida da ponta do iceberg do idealismo althusseriano. Deixei de mencionar o importantíssimo tema da "ideologia socialista" que, em parte, Althusser resgata de Gramsci. Não é preciso dizer que Ideologia em Marx não tem nada de positivo, é uma grande ofensa eu diria, mas ambos autores (Gramsci e Althusser) "ressignificam" o termo e são raríssimos os marxistas que discordaram dessa ressignificação, talvez o maior "êxito" de Althusser no sentido de influência e tem, claro, a ver com a "superestrutura socialista". Enfim, o próprio estruturalismo aqui foi o resumo do resumo, vale lembrar que ele se desdobra no pós-estruturalismo (Deleuze, Derrida, Foucault, etc.) e de nenhuma forma perde o anti-humanismo ou o caráter anti-histórico, mas apenas o verniz marxista e muitos juram que isso opõe ambos quando, na verdade, é o contrário que acontece. No capítulo "as querelas do humanismo" dos 'Ecrits philosophiques et politiques' tomo II (escritos já no fim da vida) Althusser praticamente abandona o marxismo por ter problemas insolúveis na sua visão (de fato tem: a realidade), esses problemas são resolvidos com o pós-estruturalismo onde Marx está morto.
"Uma geração [pós-1960] doutrinada por procedimentos educacionais seletivos para acreditar que seus próprios talentos especializados são uma garantia de valor e sabedoria superiores, está demasiado inclinada a aceitar o papel que lhe é oferecido por Althusser (...) A teoria althusseriana foi perfeitamente adaptada (...) e destinada exatamente a essa camada intelectual elitista. Ela permite, particularmente, ao aspirante e acadêmico empenhar-se num psicodrama revolucionário inofensivo, enquanto ao mesmo tempo persegue uma respeitável e convencional carreira intelectual." E. P. Thompson
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