O misticismo como realidade
"Misticismo é deuteroscopia. O místico especula sobre a essência da natureza ou do homem, mas na e com a imaginação ele está especulando sobre outro ser, pessoal e distinto de ambos. O místico tem os mesmos objetivos que o pensador comum e autoconsciente; mas o objeto real não é um objeto em si mesmo para o místico, mas sim um objeto imaginário, e portanto o objeto imaginário é o objeto real para ele." Feuerbach
Por que o marxismo é identificado em toda exposição que constata traços da realidade mesmo que decantados a ferro e fogo? Eu desconheço livro publicado pela Boitempo em que não tenha no comercial "perspectiva marxista", lendo o livro se constata o caráter anti-marxista da primeira a última página (em grande parte das minhas experiências, pelo menos), mas com um tom panegérico vazio em relação ao Marx. Não se trata, entretanto, de uma questão de interpretação dissonante, o materialismo marxista nada tem a ver com um mero realismo, é crítico desse, logo, qualquer interpretação realista não pode ser marxista.
O marxismo, no início do século XX, era chamado por inúmeros críticos (ex: Wittgenstein) pejorativamente de "realismo" (cujo grotesco realismo stalinista ajudou a "confirmar"), não é preciso dizer que esses críticos não se opunham ao realismo e sim ao materialismo marxista. Mas, afinal, há realismo no "irrealismo"? Quem diria o contrário? Sob que bases o diria? Nesse breve texto (até bobo porque não está descobrindo a roda) trato dessa visão sobre interpretações não-marxistas serem baseadas "em nada" que nos deixa a mercê das malditas "perspectivas marxistas". A patologia funciona assim: quando se vai a Foucault narrando a história de algum fenômeno totalmente descolado do todo, "purificado", ele vira um marxista, quando se vai ao Foucault de 'As palavras e as coisas', ele vira Alice no país das maravilhas de seu camarada de parafilias sexuais. Certas pessoas relativamente cultas tem essa visão totalmente positivista de que se está obscurantizado, fragmentado e mistificado a realidade não é objeto, e elas estufam o peito pensando estarem nas antípodas de quem acha que a realidade só existe de maneira obscura, fragmentada e mística, ambos estão rigorosamente errados. Não existe possibilidade de formular coisa alguma senão a partir da realidade, não existe hoje, não existiu ontem e não existirá jamais.
Esmiuçar sobre isso requer que ultrapassemos uma camada espessa da eidética e noética husserliana, bem como travalorizações nietzschenianas, hecceidade na interpretação de Merleau-Ponty, todo tipo de teoria linguística, estética e semiótica moderna, enfim, doses cavalares de mistificação; e essa odisseia, sem dúvidas, é de difícil digestão e muitos optam simplesmente por bravatas simplórias que não desvelam a materialidade contida em todo tipo de obscurantismo. Marilena Chauí mesmo acha que esse "impulso" de busca pelas bases reais de concepções filosóficas é péssimo porque "a realidade, quando passada, é meramente textual", como que leva a sério tal absurdo? Não se leva, nem a própria Chauí o faz quando busca determinar a classe média tão exaltada pelo Integralismo na sequência da obra de onde tiro a citação. Até parece que Ser e Nada do Sartre surge de um delírio, é uma mistificação da realidade cujo objetivo é a defesa dela (muito estóica por sinal como toda filosofia que bebe de Schopenhauer, i.e. toda a filosofia pós-Schopenhauer). Mas, como escrevia Adorno, "não há nada na terra nem no céu vazio que possa ser salvo por meio do fato de o defendermos.". Estudando a realidade da França escangalhada pela Segunda Guerra você entenderá melhor Sartre — que escreveu a obra citada enquanto uma ilustre figura passeava pelas ruas de Paris. Aliás, o próprio modo de "culto ao ser" (para usar a expressão do Adorno) do existencialismo é fruto da "perda de validade do ser" durante a Segunda Guerra (que aparece em Günther de maneira mais sistemática) e até depois com a ameaça de uma guerra nuclear. Se tudo é feito de maneira "intencional" ou não, não me interessa saber, não faço análise da personalidade ou psicológica de autor algum, o que me interessa é saber quais as bases reais sob esse entulho de conceitos e, queira eu ou não, elas estão em algum local, a questão é que "o pensanento moderno exige um aparelho conceitual próprio para demonstrar e para manter a realidade primordial das alegrias terrestres e da vida corajosa, sem entretanto fazer a menor concessão ao materialismo." (Lukács)
Alguns cortes históricos são interessantes para se notar o quanto é inútil tentar descolar a filosofia da realidade em todas os contextos e mesmo nos "sofistas nus" (γυμνοσοφισταί).
Em sua gênese, o budismo, esteriotipado no chamado ocidente como o bálsamo da paz interior em forma de doutrina, esbanjava um nítido viés violento e impiedoso principalmente com escravos, por quê? Será que a Consciência de Gautama e seus discípulos eram malum in se? Coisíssima nenhuma! O budismo era amparado pelas monarquias escravistas e pelos mercadores mais abastados da Índia, esses bancavam construções de templos e forneciam mão de obra, a filosofia budista precisava corresponder a realidade defendendo-a ou, no mínimo, a normalizando.
Chattopadhyaya mostra minuciosamente como os riks do vedismo antigo faziam referência a realidade mais ordinária, comida, água, criações, não havia nada místico e como isso se altera radicalmente com o brahmismo e as upanixades — tão enaltecidas pelo Schopenhauer, Sprengler, etc. — que passam, também, a focar em indivíduos semi-deuses e não mais em comunidades, por quê? Porque finalmente se configurava as castas e se destruía as formas comunais de vida naquela Índia. O personagem de Premchand em Godaan corre atrás de uma "garota Brahma" porque lhe possibilitará riqueza, namorar uma 'garota Chamaar' não leva à nada (casta miserável de fazedores de sapatos e outros trabalhos manuais). É redundante dizer o quanto essa sociedade eivada de antagonismos foi fundamental para o domínio britânico, tal qual as fraturas de classes já presentes facilitaram a queda de Montezuma II e do Império Asteca.
Na China, o período dos Reinos Combatentes é o útero de toda a filosofia chinesa efetivamente falando, e na China antiga havia uma característica muito peculiar: a filosofia era quase totalmente oficial, os filósofos trabalhavam, de alguma forma, para os reinos, e estamos falando de vários reinos inimigos, um querendo anexar o outro. Por isso, Mo Zi irá se insurgir contra o confucionismo ou, se preferir, os reinos que esse representava, por outro lado, o confucionismo passará a ser mais político, até mais militar de fato. Com o taoísmo, o Caminho adquire outro significado. É um contexto histórico fascinante porque vemos a realidade ditando a filosofia no estado mais cristalino, ainda mais com a saudável repulsa da filosofia chinesa antiga pelo metafísico (algo que não dura muito como se pode imaginar.)
O aristotélico tunisiano Ibn Khaldun, no século XIV, irá defender a superioridade das sociedades nômades (beduínos) em relação às sedentárias de tipo urbanas, e ele estava ciente que não era porque as nômades conseguiriam formar homens mais inteligentes e nem tecnologias mais avançadas, mas ele argumentava que, em uma região desértica, a resistência e a força física eram bens mais importantes e o nomadismo fortaleceria esses pontos porque, claro, várias sociedades ali ainda exerciam um certo nomadismo, não em sentido literal, digamos "populesco" do que se entende por nômade, mas no sentido de não serem centros urbanos como aqueles já presentes na Europa. Podemos ver esses povos ainda nos nossos dias, por exemplo, na sociedade dos Tuareg.
Para Weber, não parecia haver um mundo em torno da ascese Protestante e, mais ainda, determinando essa ascese, por isso, ele escreve "só o poder dos movimentos religiosos — não somente ele, mas ele em primeiro lugar — criou as diferenças que sentimos hoje.", mas se considerarmos os "movimentos religiosos" como criadores dos sentimentos, temos que aceitar que esses movimentos são em si mesmos criações de um demiurgo metafísico qualquer. Entretanto, mesmo partindo de tal base idealista, Weber disseca a sociedade que entrelaçava a Reforma Protestante com alguma desenvoltura e, particularmente, mostra como Calvino, Lutero, entre outros, circunscrevem os homens à dignificação por meio do trabalho e que a riqueza e outros traços da vida terrena (intramundana) não eram necessariamente pecados ou desvios que impossibilitariam a salvação no pós-vida: "a perda de tempo é, assim, o primeiro e em princípio o mais grave de todos os pecados. Nosso tempo de vida é infinitamente curto e precioso para "consolidar" a própria vocação. Perder tempo com sociabilidade, com "conversa mole", com luxo, mesmo com o sono além do necessário à saúde — seis no máximo oito horas — é absolutamente condenável em termos morais. Ainda não se diz aí, como em Franklin, que “tempo é dinheiro", mas a máxima vale em certa medida em sentido espiritual: o tempo é infinitamente valioso porque cada hora perdida é trabalho subtraído a serviço da glória de Deus." E as traduções bíblicas de Lutero, principalmente, trazem trechos que se repetem nas traduções de luteranos ingleses, "obra" vira "business", etc. Para mim, parece óbvio que os teólogos protestantes correram para validar a realidade que se apresentava diante de seus olhos contra o medievalismo que o catolicismo carregava nas costas. De forma alguma não haviam católicos dispostos a soçobrar esse medievalismo, Weber mesmo mostra os atinados "conselhos" de São Tomás de Aquino nesse sentido, mas a Igreja Católica simplesmente não conseguiu abandonar o reino dos céus a tempo de evitar a expropriação no reino deste mundo e teve que correr para sobreviver no atraso das colônias.
Brasil e a ausência de originalidade
E chegamos ao identitarismo no Brasil. É um salto social qualitativo considerável e, não sem razão, a complexidade e sofisticação filosófica estão à altura. Como que tal coisa surge? Será que é tudo culpa da "grigalhada" e de seus discípulos no Brasil? Evidentemente não pode ser tão simples algo com tanta força e amplitude. Mas comecemos deixando algo bem claro, o que se discute hoje, no Brasil, no âmbito das ciências "humanas" não raramente perdeu a vitalidade em muitos centros ou modificou-se radicalmente os termos da discussão por fatores como a redundante alteração daquelas sociedades. As sociedades da França, Alemanha e EUA (só para ficarmos em três) estão a anos luz de distância da nossa. O desenvolvimento do capitalismo é desigual, embora integrado. Fenômenos sociais que hoje podem ser reproduzidos no Brasil nascem do seu desenvolvimento particular. É claro que o Brasil de hoje, como sociedade, é muito diferente do Brasil de 60 anos atrás; nessa época, haviam discussões sobre os mais diferentes temas nas ciências "humanas" mais condizentes com o tempo em que irradiavam brilho nos centros, mas as discussões — com exceção daquelas ligadas ao positivismo, em franco descrédito nos centros também — eram esotéricas (por exemplo, nas obras de Gustavo Corção e do Padre Leonel Franca), quer dizer, eram discussões onde a realidade do Brasil era coadjuvante, quando muito.
É redundante dizer que no Brasil de hoje, o identitarismo só mostra força porque aqueles fenômenos interpretados e mistificados por ele finalmente se fazem presentes na nossa realidade. A discussão se tornou exotérica. O fato de tudo ser feito por intermédio de autores gringos apenas indica o pauperismo dos intelectuais brasileiros que passam a vida sendo tradutores e não produzem nada realmente original (nem mesmo ideologias!). Pensemos, por exemplo, a teologia da libertação — independentemente de haver ou não condições para brotar tal concepção em solo brasileiro — é algo que nunca viria de um teólogo ou um conjunto de teólogos brasileiros porque esses não são muito diferentes dos cientistas de "humanas", afinal, florescem no mesmo solo acadêmico — o último teólogo original brasileiro (Matias Aires) viveu no século XVIII. Assim, corretamente escrevia Alberto Guerreiro Ramos sobre Euclides da Cunha "qualquer estudante de sociologia ou de antropologia atualmente, é capaz de descobrir os erros do autor de "À Margem da História". Mas nenhum dos nossos sociólogos mais festejados o excede, em autonomia mental, na capacidade de ver os problemas brasileiros". Há outro autor que afirma que o primeiro tratado de filosofia original brasileiro foi 'Ciência e Existência' do Álvaro Vieira Pinto, não dá pra negar que é uma obra original, mas eu discordo que seja o primeiro, é muito claro que 'América-Latina - males de origem' de Manoel Bonfim cumpre este papel fundacional (deixo claro que os problemas das duas obras não são poucos, mas isso não lhes tolhe a originalidade em absoluto), contudo, são obras que datam de quase um século atrás e, no caso da última, mais de um século!
Durante as guerras que se sucederam na Grécia Antiga: Guerras Médicas, Guerra do Peloponeso (contemporâneas a Sócrates e Platão) e as guerras de Alexandre, o Grande (contemporâneas a Aristóteles), os pensadores gregos puderam entrar em contato com um mundo até então totalmente desconhecido, sobretudo durante a expansão, comandada por Alexandre, sobre o Oriente-Médio. A assimilação de filosofias mais antigas acontece de fato a partir dos estoicistas, com mais força. Contudo, os gregos nunca se furtaram de analisar e pensar sua realidade a partir dela mesma, seus problemas efetivos, então, raramente você verá gregos se esbaldando de citações aos pensadores indianos, persas, etc., não é nenhum tipo de preconceito, quem pensa assim é efetivamente um idiota, não há outro adjetivo possível porque desconhece a assimilação da aritmética e da matemática vinda dos egípcios, algo que tinha aplicabilidade à realidade grega, mas não se pode falar o mesmo de outros conhecimentos, por exemplo, particulares à Índia — suponhamos o platonismo entrando em contato com o tantrismo, temos aí oposições no sentido mais cru da palavra: o platonismo na sua interpretação do corpo como uma prisão que temos que nos libertar e o tantrismo exaltando tudo que é corpóreo, quase santificando o corpo.
O que quero dizer com essa tergiversação? Que não se trata de negar o caráter universalizante da filosofia — menos ainda de rejeitar as assimilações —, mas ao negar o particular se compromete o potencial universal de maneira igualmente danosa. O problema da ausência de originalidade dentro da intelectualidade brasileira, cuja determinação está alicerçada na posição do Brasil na divisão internacional do trabalho, é uma discussão quase inesgotável e cheia de nuances que seria impossível tratar em alguns parágrafos.
Toda liberdade à consciência da identidade, nenhuma para o homem!
A identidade, no seu conhecer órfico, não quer ter sua consciência forjada por nada, quer ter o nihil para forjar o seu todo. O autêntico é sua autenticidade, a história é sua historicidade, não importa o vínculo confuso com a realidade — conveniente em grande parte —, ou mesmo a mentiras flagrantes de tal ou qual posição. Neste estágio, se dilui a objetividade das coisas em prol da objetividade da identidade, só é objetivo o que é para mim, aquilo se identifica apenas comigo. Até o espaço e o tempo perdem o direito de ser e se tornam meros agregados da consciência da identidade, os quais ela usa para montar maquetes e arquétipos ideais que contemplam o seu ser em toda sua plenitude. Esta liberdade irrestrita atinge o ápice do solipsismo e se traveste de uma consciência crítica em que tudo rasteiro vira alvo, mas nada de grandioso é danificado e nem, consequentemente, proposto. Se o elo crítico que liga a identidade à liberdade fosse em direção a emancipação dos indivíduos dos grilhões reais, não haveria qualquer necessidade de fazer da identidade um Super-Homem epistemológico. A identidade não exibe nenhuma potência crítica prática, todas as suas lutas se dão na contenção. Chega a ser risível quando a identidade nega e aconselha a negação como forma de vencer demônios porque, afinal, aquilo que nego deixa de existir para mim. A identidade é uma criança mimada, desamparada e desesperada em meio ao fogo cruzado capitalista.
Voltando ao caráter mistificador da realidade feito pelo sistema das identidades, podemos declarar uma útil tautologia (aliás, o ponto central de todo o texto é uma grande tautologia, o que é sintomático): no capitalismo, especificamente, enquanto os prejuízos são socializados, os sofrimentos são individualizados, as identidades, como todas as ideologias, surgem para ser — além da cortina de ferro entre o mundo real e a realidade mistificada — a proposição da coexistência com esse angustiante fato através de uma "impune extraterritorialidade da imaginação" (expressão interessante de Revueltas): você se identifica consigo mesmo através de superficialidades que são tudo que você tem — "é o que dá para fazer" —, mas não se preocupe, lutaremos pela sua liberdade de identificar-se com o diferente, por isso, desconstruiremos a lógica carcomida das identidades estáticas, binárias, opressivas (Judith Butler) e lutaremos pelo direito a pluralidade (como se fosse possível fazê-lo da epistemologia à prática, mas deixemos o idealismo se expressar sem represálias). A miserabilidade teórica não tem limites e as armadilhas da identidade estão dispostas antecipar sua morte para viverem um pouco mais. Temos uma prova disso na crítica positiva ao "identitário" como ideologia que prevarica a maravilhosa identidade plural butleriana sob a ótica de um estruturalista como Asad Haider, que escreve "se estivermos atentos às lutas [das identidades] que estão fora dos limites do Estado, a emancipação universal aparece no horizonte.", mas é isso, não é? Como se luta de maneira direta e organizada contra estruturas perenes que surgiram por algum poder divino e se mantêm pelo mesmo? E ele garante que essa luta "fora dos limites do Estado" será contra o status quo, certamente aquele status quo que oprime a identidade que faz de si o centro do mundo, que faz da sua ficção a essência da realidade.
E neste último autor citado, como em Butler, mais uma vez temos a ladainha de sempre, qualquer traço de identidade coletiva é "colonialismo cultural" [as aspas são pela minha ignorância de não saber o que isso significa, cada autor diz algo sobre e nenhum diz nada substancialmente consistente e me parece muito óbvio, no mínimo, o anacronismo em definir algo como colonial sem termos um sistema colonial vigente em boa parte do planeta. "Colonial" é uma categoria que expressa um conjunto de relações sociais objetivas, não um mero conceito idealista], desconsiderando todos os demais aspectos deletérios de toda e qualquer identidade. A identidade certa deve ser o mais individual possível, por consequência, amorfa — como em Heidegger, mas quando se tem como referência um nazista raramente alguém tem coragem para admitir, o que é de uma imaturidade intelectual jocosa.
"Para sentir a pátria, senhores, é preciso amá-la na privação e no desterro." Tais ilusões de Ruy Barbosa não mais movem montanhas. De minha parte, sem querer criar nenhum juízo apodítico, tenho bem poucas dúvidas sobre a desvinculação do brasileiro com a identidade coletiva da Nação real e não meramente da simbólica oferecida pelos "Patriotas". E esse modo de ser não remete a um entreguismo, é uma simples busca por autopreservação. O suposto espírito da Nação não mais sopra qualquer brisa à vida do brasileiro, aparece apenas como caricatura em forma de pão e circo — mesmo dessa forma, só tem lhe trazido tristeza, por sinal. Resta ao indivíduo, abandonado à própria sorte, tentar sobreviver para além da Nação que há muito parece que cessou. É atual quando um estóico Abdias Nascimento escrevia há mais de 40 anos atrás "[o negro brasileiro] para evadir do sentimento de frustração, mesmo ao custo de recorrer a modelos alienados, cuja origem ostensiva são os estilos cultivados pelos negros dos Estados Unidos". Mas nem todos [bem poucos] podem se evadir da realidade como Abdias, resta o amargo dissabor da frustração que esmaga os indivíduos da classe trabalhadora brasileira e que jamais podem ser emancipados por uma mera identificação descritiva com sonhos transcendentais. O solo fértil para a disseminação da identidade, que tem como único fim justamente autopreservação pela evasão, está pronto para o plantio. Finalmente a identidade encontra utilidade na realização da consciência infeliz, que em Aristóteles é infeliz por não ser feliz, mas em Hegel basta ser para ser infeliz, ela não pode não ser infeliz nesta época, seu ser está condenado a infelicidade cujo "conteúdo de seu zelo, em lugar de ser algo essencial, é o mais vil; em vez de ser algo universal, é o mais singular; assim nos deparamos com uma personalidade só restringida a si mesma e a seu agir mesquinho, recurvada sobre si."
Termino com uma interessante passagem de um famoso Papa das identidades de tipo esquizóide que, na prática, é só uma sofisticação da consciência (metaforicamente, da identidade) infeliz de Hegel: "parece que a antiga profundidade se espalhou e tornou-se largura (...) profundo deixou de ser um elogio. Só os animais são profundos; e nem mesmo os mais nobres, que são os animais planos. Os eventos são como cristais, eles só se tornam e crescem pelas bordas, nas bordas." Por fim, Deleuze sacramenta "o estado de coisas é individualizado, compreende qual ou tal corpo, misturas de corpos, qualidades e quantidades, relações (...) basta que nos dissipemos um pouco, que saibamos estar na superficie, que estendamos nossa pele como um tambor, para que a "grande política" comece."
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Bibliografia utilizada:
Ludwing Feuerbach, Das Wesen des Christentums
Marilena Chauí, ideologia e mobilização popular
Theodor Adorno, Dialética negativa
Günther Anders, Die Antiquiertheit des Menschen
György Lukács, Existencialismo ou Marxismo
Debiprasad Chattopadhyaya, Lokayata: A Study in Ancient Indian Materialism
Ibn Khaldun, The Muqaddimah
Max Weber, A Reforma protestante e o "espírito" do Capitalismo
Alberto Guerreiro Ramos, O problema do negro na sociologia do Brasil
José Revueltas, Los días terrenales
Judith Butler, Problemas de gênero
Ruy Barbosa, Discursos e conferências
Abdias Nascimento, O genocídio do negro brasileiro
G. F. W. Hegel, Fenomenologia do Espírito
Gilles Deleuze, Logique du Sens
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