Breves notas sobre o irracionalismo e razão técnica
Às vezes, acontecem alguns debates entre intelectuais gringos que são interessantes, entretanto, quase sempre os debatedores não estão falando a mesma língua e nem mesmo sabem a língua que o outro está falando. É o que frequentemente acontece entre os "racionalistas" e os "irracionalistas", os últimos geralmente sabem perfeitamente a língua que falam os primeiros, mas eles mesmos não a falam, mas os primeiros geralmente estão num mar revolto e sem bússola, e é até dantesco perceber o quão inocente são quando dizem coisas do tipo "isso que vocês [irracionalistas] estão colocando não faz sentido; isso é um completo absurdo; isso não tem base histórica alguma; isso não se sustenta em nada", ao fim, os irracionalistas falam "sim". Quem "ganha" o debate me parece óbvio, mas a verdade é que os irracionalistas já começam perdidos. Então, tentando demonstrar alguma dignidade, eles apelam, é claro. As apelações são inúmeras, desde ataques ad hominem infantis, até conjecturas infundadas sobre as razões pelas quais estão sendo criticados, assim, cedo ou tarde, junta-se a eles um idêntico da universidade do fim do mundo da Finlândia, outro da Coreia do Sul, etc., para defender os irracionalistas e o próprio irracionalismo. O racionalista acaba isolado — tanto porque há bem poucos como ele, quanto porque os poucos não estão dispostos a sofrerem os mesmos ataques pessoais e calúnias de todo tipo. E, enfim, o último é derrotado em número. Se vacilar ainda sai com fama de racista, machista, xenófobo, sexista e tantos outros qualificativos, ao mesmo tempo, o conteúdo do debate é envolto por uma densa e intransponível névoa de chorume. Mas se pode dizer que sempre foi assim, o pensamento dominante sempre agiu despoticamente contra detratores, e isso estaria correto, entretanto, o despotismo se dava através do debate sobre o conteúdo e não há possibilidade de isso ser feito entre o pensamento dominante atual e os detratores porque eles não estão apenas em polos opostos, um está na realidade — por distorcida que seja —, outro, na ficção.
A mitologia é um elemento muito mais presente nos nossos tempos que há dois mil anos, ela tem passado despercebida porque não se põe como mitologia. Seu pressuposto ceticista fundamental é de que grande parte [quando não o todo] das coisas é incognoscível, logo, temos acesso a um conjunto de romances — ou "poemas" segundo Rickert — em que cada autor narra uma trama ao seu bel-prazer, partindo de sua "individualidade" e nada mais. Se assim é, não resta saída a não ser apelar a metafísica que, diferente do que pensava a Dorothy Emmet, está longe de ser superada, parafraseando Hegel, "o filósofo moderno sem metafísica é como um templo sem o sagrado."
Para Derrida, essa construção mitológica ganha o nome de "contexto", mas, contrariando o próprio Derrida, é só um nome diferente para a mesma coisa. Não temos dúvidas sobre isso a partir do esclarecimento do próprio autor:
"Podemos chamar de "contexto" toda a "história-real-do-mundo", se preferir, na qual esse valor da objetividade e, ainda mais amplamente, da verdade (etc.) adquiriram significado e se impuseram. Isso não os discredita nem um pouco. Em nome de quê, de qual outra "verdade", aliás, seria? Uma das definições do que se chama desconstrução seria o esforço de levar em conta esse contexto ilimitado, de prestar a mais aguçada e ampla atenção possível ao contexto e, portanto, a um movimento incessante de recontextualização. A frase que para alguns se tornou uma espécie de slogan, em geral tão mal compreendida, da desconstrução ("não há nada fora do texto" [it n y a pas de hors-texte]), não significa outra coisa: não há nada fora do contexto." (Limited inc., Jacques Derrida, 1988, p. 136)
Pensando nisso, eu resolvi escrever um breve resumo sobre as bases do "irracionalismo" que não tem a menor intenção de encerrar o debate e nem mesmo colocar esse resumo como único e melhor possível, ao contrário. Por se tratar de um conjunto muito disperso e de complicada interconexão, o irracionalismo (que é só um nome que resolvi usar por motivos didáticos e não por apego intelectual) ainda não encerrou seu próprio desenvolvimento, logo, não pode ser tratado do ponto de vista de uma autópsia, mas, talvez, como uma sessão terapêutica, por assim dizer.
Nas "reduções fenomenológicas" de Husserl:
"Poderemos remover as barreiras cognitivas inerentes à essência de todo modo natural de investigar, diversificando a direção unilateral própria ao olhar até obtermos o livre horizonte dos fenômenos "transcendentalmente" purificados e, com ele, o campo da fenomenologia em nosso sentido próprio. (...) Em comparação a isso, a fenomenologia pura ou transcendental não será fundada como ciência de fatos, mas como ciência de essências (como ciência "eidética"); como uma ciência que pretende estabelecer exclusivamente "conhecimentos de essência" e de modo algum "fatos". A redução aqui em questão, que leva do fenômeno psicológico à "essência" pura ou, no pensamento judicante, da universalidade fática ("empírica") à universalidade de "essencia", é a redução eidética. Os fenômenos da fenomenologia transcendental serão caracterizados como irreais. Outras reduções, especificamente transcendentais, "purificarão" os fenômenos psicológicos daquilo que recebem da realidade e, portanto, de sua inserção no mundo. Nossa fenomenologia não deve ser uma doutrina das essências de fenômenos reais, mas de fenômenos transcendentalmente reduzidos." (Ideias para uma fenomenologia pura e para uma ciência fenomenológica, 2006, pp. 27-28)
Tentarei traduzir isso para o português como puder:
A fenomenologia, ou seja, a doutrina dos fenômenos não dar a menor importância para aquilo que existe materialmente ("modos naturais existência"), nem mesmo para as manifestações materiais dos fenômenos, isso é uma perversão, temos que nos livrar disso por meio de uma transcendência do Eidos, que na tradução é forma ou imagem, para Husserl (eu sei bem que pode ser traduzido, em Platão, por exemplo, de outras inúmeras maneiras, mas não estou falando de Platão).
"A concepção husserliana não significa que a essência seja um objeto platônico, nem que seja um objeto dentro de outro objeto, como um "algo independente" de um ponto de vista ôntico. É fundamentalmente o correlato de uma forma de "visão" na qual algo objetivo é dado com total originalidade e sobre o qual, como sujeito, é possível formular predicações possíveis." (Obras completas, tomo I, Federico Riu, 1997, p. 9)
Assim sendo, "árvore" é a imagem ou forma de uma árvore, evidentemente expressamos isso através da linguagem, mas é possível construir uma árvore mentalmente? Sem dúvida, basta imaginar uma árvore, formar uma imagem de uma árvore, ou seja, um processo "noemático" (intencional) em Husserl, aí temos a essência da ciência eidética e aquilo que ela busca investigar. Husserl mesmo faz esse exemplo bem didático como toda sua filosofia:
"A árvore pura e simples, a coisa na natureza, é tudo menos esse percebido de árvore como tal, que, como sentido perceptivo, pertence inseparavelmente à percepção. A árvore pura e simples pode pegar fogo, pode ser dissolvida em seus elementos químicos etc. Mas o sentido — o sentido desta percepção, que é algo necessariamente inerente à essência dela — não pode pegar fogo, não possui elementos químicos, nem forças, nem qualidades reais." (Ibid, p. 206)
Aqui, ele também inclui a percepção como essência da imagem, digo, se eu percebo uma árvore eu não percebo a árvore física, eu percebo, vamos dizer assim, a IDEIA de uma árvore, ela só existe para e por mim. Mas aí se pode dizer "mas isso parece ficção", sim, Husserl concorda:
"Também ali onde se "reflete" a respeito da figura, os novos processos de pensamento que se acrescentam são, em sua base sensível, processos imaginativos, cujos resultados fixam as novas linhas da figura. (...) Assim a "ficção" constitui o elemento vital da fenomenologia, bem como de todas as ciências eidéticas, que a ficção é a fonte da qual o conhecimento das "verdades eternas" tira seu alimento." (Ibid, p. 154)
Há um trecho, não me recordo se pertence às Investigações Lógicas — talvez o mais importante livro de Husserl, foi escrito ainda no século XIX e o qual Olavo de Carvalho, o próprio, escreveu uma introdução — que se estabelece que todo facto é fictio, ou seja, todo fato depende de uma ficção porque, sendo a raiz da palavra ficção uma indicação de uma construção pela imaginação, e sendo a "nova ciência" a ciência da imagem (eidos), só se pode construir fatos a partir da ficção. Não podemos negar a coerência interna, não é verdade?!
E Husserl continua:
"Vislumbro uma coisa na imaginação, por exemplo, um centauro. Creio saber que ele se exibe em certos "modos de aparição", em certos "perfis de sensação" [Abschattungen], apreensões etc. Creio ter dele uma visão de essência pelo seguinte: um tal objeto só pode ser intuído em tais modos de aparição, somente mediante tais funções de perfil e o que mais possa desempenhar um papel aqui. Ao ter, porém, o centauro diante dos olhos, eu não tenho diante deles os seus modos de aparição, os dados em perfil, as apreensões, e ao apreender sua essência, não apreendo a estes e à essência deles. Para isso, é preciso certas mudanças reflexivas do olhar, que, no entanto, põem todo o vivido em fluxo e o modificam; e assim tenho, na nova ideação, algo novo diante dos olhos e não posso afirmar que obtive os componentes eidéticos do vivido irrefletido. Não posso afirmar que faz parte da essência de uma coisa como tal exibir-se em "aparições" da maneira que foi indicada, isto é, mediante dados de sensação que se perfilam, os quais, por sua vez, passam por apreensões etc." (Ibid, p. 177)
Basicamente sendo o centauro um objeto puro considerando que não existe no mundo físico, o "vivido", no caso, o centauro da minha imaginação, vira uma marionete em que posso fazer tudo através da reflexão. Eu não tenho os seus modos de aparições e nem seus perfis porque ele não existe materialmente, como um copo, por exemplo, eu sou capaz de ver um copo na sua completude? Não, digamos que ele está sobre uma mesa à altura dos meus olhos, eu não vejo o outro lado se não mover o copo, não vejo dentro do copo e nem o fundo do copo se não mudar o perfil dele ou o meu, um copo imaginário não sofre com esses "problemas", ele é todo para mim. Husserl usa o termo "doação" para essa ação de dar ao objeto da imaginação um "sentido" e eu não posso não fazê-lo porque, afinal, é algo meu, da minha "ideação".
É um grande momento histórico anti-histórico do fazer científico: o Super-Homem ôntico-epistêmico que pode forjar conhecimentos infinitos a partir de si mesmo com base em critérios inteiramente seus (chamado por Husserl de "individuação"). Temos que admitir o nível elevadíssimo de vaidade alimentado por esse arcabouço "teórico". Resta, então, dar sentido ao que escrevia Alasdair MacIntyre "aqueles filósofos que estão ansiosos para que o que eles dizem seja socialmente relevante, na maioria das vezes, se tornaram desleixados e sem rigor ao invés de confiáveis guias para à verdade.", se a verdade é minha não há perigo quanto a cair em mentiras! Os construtivistas dirão:
"Por vezes essas construções [idealistas], embora igualmente válidas, são incompatíveis entre si. Nestes casos devem ser consideradas como válidas em mundos diferentes. Dito de outra maneira, qualquer domínio pode ser sistematizado igualmente bem de muitas formas que diferem essencialmente nas características lógicas e nos compromissos ontológicos pelos quais optam. Daqui resulta um pluralismo não apenas metodológico (há muitos processos de construir o mundo), mas também ontológico (há muitos mundos)." Maria Carmo d'Orey
Mas qual a razão desta exposição? Eu só quis mostrar — reconheço, superficialmente — a ideia geral de todo o pensamento ocidental dos últimos 150 anos, da maneira mais bem sintetizada e Husserl é imbatível nisso, pelo menos na minha opinião. Digo "pensamento ocidental" não porque no oriente, através do neoconfuncionismo e do vedismo moderno, não hajam os mesmos níveis de irracionalismo, há sim! até mais bem elaborados em certos aspectos. E o Japão em si pode ser considerado um país totalmente ocidentalizado do ponto de vista intelectual — um processo que se deu a partir da 'Escola de Kyoto' fortemente influenciada pelo existencialismo heideggeriano —, mesmo não abrindo mão do que chamam 'Nihonjinron' (日本人論), ou nacionalismo etnocentrista de sempre. Existem aspectos das formas japonesas de interpretar o mundo que deixariam um relativista moral ocidental escandalizado (Masahiro Morioka (ex) transmite vários) . Enfim, também é preciso dizer que você encontrará variações daquilo sintetizado por Husserl em Merleau-Ponty, Scheler, Bergson, Sartre, Deleuze, Derrida, Heidegger, Foucault, Bauman, etc, etc., só que esses, diferente de Husserl, não tentaram criar uma ciência propriamente dita, no sentido universal, isso foi o que Husserl tentou fazer a vida inteira e o fato de ser muito complicado é porque é uma loucura se você parar para pensar e entender, daí a defesa da Loucura como um mero estado de "espírito" e não uma enfermidade a ser tratada (em Ponty e Foucault, por exemplo) passa a fazer sentido.
Alguns destaques sobre a Loucura, Foucault escrevera:
"A percepção do louco não tinha por conteúdo, finalmente, nada além da própria razão; a análise da loucura entre as espécies da doença, de seu lado, só tinha por princípio a ordem de razão de uma sabedoria natural, e tanto que ali onde se procurava a plenitude positiva da loucura só se encontrava a razão, tornando-se a loucura assim, paradoxalmente, ausência de loucura e presença universal da razão. A loucura da loucura está em ser secretamente razão. E esta não-loucura, como conteúdo da loucura, é o segundo ponto essencial a ressaltar a propósito do desatino. O desatino é que a verdade da loucura é a razão." (A História da Loucura, 1978, p. 227)
Os desavisados até hoje trazem louros para Foucault e o vitalício título de defensor dos loucos contra as torturas manicomiais, quando, como é claro, foi somente um defensor da loucura, os loucos apenas "entraram de gaiato". Merleau-Ponty vai na mesma linha:
"A existência do doente [alucinado] está descentrada, ela não se consuma mais no comércio com um mundo áspero, resistente e indócil que nos ignora, ela se esgota na constituição solitária de um ambiente fictício. Mas essa ficção só pode valer como realidade porque no sujeito normal a própria realidade é alcançada em uma operação análoga. (...) O normal não desfruta a subjetividade, ele se esquiva dela, ele deveras está no mundo, tem um poder franco e ingênuo sobre o tempo, enquanto o alucinado se beneficia do ser no mundo para talhar-se um ambiente privado no mundo comum e tropeça sempre na transcendência do tempo. (...) Ter alucinações e, em geral, imaginar é aproveitar essa tolerância do mundo antepredicativo e nossa vizinhança vertiginosa com todo ser na experiência sincrética." (Fenomenologia da Percepção, 1999, pp. 458-459)
Ainda tem um interessante diálogo de Zaratustra com um louco bem na entrada de sua caverna no 'assim disse Zaratustra' do Nietzsche, é claro. Antes de tudo isso, o atento von Hartmann, enquanto lia os absurdos solipsistas de Friedrich Lange, com ácida ironia, nota que cometeu um erro ao ignorar aquilo por se tratar de "formulações de hospício risíveis" e escreve:
"Eu havia subestimado o poder contagioso da loucura [Wahnsinns], que, em circunstâncias favoráveis, pode até assumir um caráter epidêmico. Essas circunstâncias favoráveis eram, por um lado, a influência crescente do neokantismo e, por outro, uma atitude niilista blasé e cética da nossa juventude estudantil." (Neukantianismus, Schopenhauerianismus und Hegelianismus, 1877, p. 84)
Haveria mais para falar sobre a Loucura, mas acredito que o ponto já ficou claro.
De volta ao louco Husserl, Lukács até põe corretamente que, sendo Husserl herdeiro de Kierkegaard, postos em perspectiva, esse último parece pertencer a uma corrente filosófica absolutamente oposta porque ao menos Kierkegaard considerava a história, a sociedade, e de Husserl em diante esses "elementos" nem existem ou somente existem condicionados pelo idealismo. Conclui Lukács:
"O método que Husserl declarou ser “estritamente científico” não é, portanto, nada mais do que a afirmação subjetivo-idealista: são as MINHAS ideias que determinam a essência da realidade." (Destruction of Reason, 1981, p. 483)
Até onde o meu conhecimento alcançou, Lenin foi o primeiro a tentar ir para um embate contra alguns irracionalistas na figura dos empiriocriticistas, mas os empiriocriticistas comparados aos "irracionalistas" são bebês de colo, mesmo que, alertava Lukács, Ernst Mach (um dos mais famosos empiriocriticistas) tenha feito esboços do que viria a desenvolver Husserl.
De onde vem a irracionalidade?
Tudo está contaminado, desde a ficção a não-ficção, as ciências naturais e mesmo as exatas, mas essas últimas tendem a ter filtros mais resistentes que, muito embora possam ser descritos como igualmente danosos para o próprio desenvolvimento dessas ciências (e são mesmo!), inibem grande parte dos ímpetos irracionalistas porque essas ciências possuem um grau de autonomia em relação às áreas estratégicas de poder e domínio tecnológico muito limitado, não podem se dar ao luxo de colocar entre parênteses um protótipo bélico ou uma nova liga usada em microchips. A siderurgia não pode trabalhar nestes seguintes termos:
"E os bons testes não precisam ser conclusivos; a atração pelo imã é um bom teste para o ferro, mas não um teste conclusivo. Nem nós precisamos ser capazes de explicar por que razão a utilidade, a coerência ou alguma outra característica é um indício de verdade. Podemos usar a atração como um teste para ferro sem compreender de todo a ligação entre a atração e a composição do ferro; tudo o que precisamos é de ficar convencidos de que há uma correlação razoavelmente fiável entre os dois." (Modos de fazer mundos, Nelson Goodman, 1995, pp. 175-176)
Alguns irão teimar que essas teses são absolutamente marginais, mas eu creio que isso é o equivalente a afirmar que existe uma espécie de doutrinação marxista nas academias, precisa está muito alheio a esses ambientes para não notar a proeminência do irrealismo. Husserl de fato se tornou um autor marginal, mas, novamente, só usei ele de maneira ilustrativa e porque acredito possuir a mais completa síntese do que seria essa "doutrina" que solapou as ciências "humanas". Husserl era, também, um grande matemático (a doce ciência da abstração eterna!), então ele é capaz de peregrinar por amplos domínios das "exatas", sem contar que sua ideia de ciência, como já escrevi, era universal e não somente de "humanas". Inclusive a marginalidade de Husserl se deve justamente, entre outras coisas, por esse ímpeto à universalidade, mesmo que ideal. Sua superação é seu aprofundamento, ou seja, cava-se dentro do buraco do fundo do poço, como o fez Heidegger, assim como "antes de ser aristotélico, Aristóteles é um platônico que corrige Platão" (H. Gouhier), Heidegger é um husserliano que corrige Husserl.
Mas uma coisa é certa, não basta apenas dizer o óbvio, que é o tema do primeiro parágrafo: isso tudo é um absurdo, onde já se viu FICÇÃO como REALIDADE, como pode milhões de pessoas ganharem títulos de mestres e doutores com tais programas de pesquisas, como podem autores de ficção serem importantes figuras das ciências?! enfim, isso é uma denuncia quase inútil porque a sociedade capitalista, em sua fase imperialista, com tantos fenômenos fantasmagóricos (juros, crédito) e no auge da irracionalidade, continua tornando toda essa loucura algo completamente plausível, mas tendemos a normalizar o sanatório em que nascemos e vivemos, consciente ou inconscientemente.
Marx escreve que "o juro como preço do capital é, desde o início, uma expressão completamente irracional [Begriffslosigkeit = sem conceito/razão]. Aqui, uma mercadoria tem um duplo valor: primeiro um valor e, depois, um preço diferente desse valor, embora o preço seja a expressão monetária do valor. (...) Um preço qualitativamente distinto do valor é uma contradição absurda.", em seguida, Marx comenta sobre um economista chamado Thomas Tooke ver confusão nas colocações contraditórias e não no próprio movimento interno dos juros quase como um linguística lutando contra palavras e frases "a maior confusão aqui (que na verdade está na coisa em si), i.e., que o valor como tal (juros) passa a ser o valor de uso do capital, é algo que Tooke não vê."( Capital, vol. III, 1981, pp. 475-476)
Porém, até mesmo o Dinheiro não possui em si mesmo uma relação de todo racional e nem mesmo "física", é alienado em essência, é algo que se vale através de um espectro que se esvai da forma material imediata e projeta seu valor em um circuito de mercadorias. Escrevia Kant "o valor do dinheiro é, ao invés, apenas indirecto. Nem se pode em si mesmo desfrutar, nem se pode utilizar como tal directamente para qualquer fim; no entanto, é um meio da maior utilidade entre todas as coisas. (...) uma definição real do dinheiro: é o meio universal para efectuar o intercâmbio do trabalho das pessoas, de modo que a riqueza nacional, na medida em que foi adquirida por meio do dinheiro é, em boa verdade, apenas o somatório do trabalho com que os homens se retribuem entre si e que é representado no dinheiro em circulação no povo." (A metafísica dos costumes, 2017, p. 136)
Uma das poucas coisas da tese do Lukács sobre a destruição da razão que eu tenho pleno acordo, e é irrefutável, é que ele, ao seu modo, também conecta a irracionalidade como sendo fruto do modo de produção e não meramente da consciência dos homens, ou seja, tal qual às identidades, que correspondem a um misticismo derivado da bokanovskização dos homens dentro do capitalismo — que, na medida em que simula uma independência individual, atravanca a individualidade não restando alternativa a não ser forjar uma auto-identificação ideal —, o irracionalismo intelectual não é mais que um reflexo do irracionalismo social.
Paul Baran e Paul Sweezy irão tentar mostrar esse movimento em 'Monopoly Capital'. Para eles, quanto mais racional se torna a busca pela reprodução do capital, mas irracional se tornam seus efeitos e que quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais incompatível com qualquer racionalidade ele se torna. E eu discordo porque não acredito que existe racionalidade em nenhum momento do processo, ele gera irracionalidade porque é em si mesmo irracional. Essa irracionalidade não significa de maneira nenhuma uma "não funcionalidade", significa desprezo total para com a própria sobrevivência com objetivo de auferir a reprodução a qualquer custo, me parece claro que isso é funcional por um determinado período. A questão é que os "Pauls" entendem por racionalidade a capacidade do sistema em produzir ciência que aumenta sua capacidade pela insaciável acumulação, mas eles não percebem que essa idolatria à ciência (totalmente pragmática e despoticamente guiada) não leva em consideração nem mesmo a possibilidade desse "salto adiante" comprometer a própria reprodução ali naquele poço de petróleo, ali naquela indústria, sem contar os constantes ataques contra a força de trabalho que é também a única capaz de realizar as mercadorias. Se há uma racionalidade é ela a mais imediatista do mundo e eu não consigo ver imediatismo como racional, apenas instinto, em outros termos, "atitudes" animalescas de um falso ente. A técnica pode ser racional, mas não necessariamente será o movimento de aplicação dela. Basta vermos a indústria bélica, nada pode ser mais irracional que queimar capital e ninguém pode negar a expertise científico-técnica da malha industrial de guerra.
Ao meu ver, é muito perigoso conectar a racionalidade técnica a uma automática reprodução de tal racionalidade no modo de produção ou, o contrário, a racionalidade do modo de produção como sendo a responsável pela racionalidade da técnica, isso, volta e meia, nos faz se voltar contra máquinas o que nos torna ainda mais alienados em relação aquilo que produzimos. Qualquer grau de racionalidade é estritamente humano, inclusive contra todos os despotismos pragmáticos de um sistema irracional do início ao fim que chegará.
"É preciso empunhar o hissope e borrifar de água-benta a maquinaria que os centros científicos do mundo inteiro estão produzindo, a qual se em verdade inclui muitos instrumentos genocidas, representa na imensa maioria dos casos conquistas destinadas a preparar melhores tempos para a humanidade." (Álvaro Vieira Pinto, O conceito de tecnologia, Vol. I, 2005, p. 412)
Ps: Todos os trechos de obras publicadas em outras línguas foram traduzidos por mim.
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