Palavras apenas...
Guardada as devidas proporções, frases de boteco do tipo "palavras trazem consigo um peso emocional" só repetem o antigo lema positivista: "o que está na letra é lei". Entretanto, agora, o alvo da lei é o emocional e a letra quem dar somos nós, embora não façamos conscientemente, o entendimento do emocionado é que vai dizer o peso de nossas palavras. Eu não posso dizer o que quero, pois há um risco iminente de machucar alguém. Nem o policiamento mais totalitário iria tão longe.
É evidente que palavras impactam de diferentes maneiras, mas porque representam algo que já estava previamente posto e não porque possuem uma potência intrínseca. A geração catatônica, ansiosa e com pulsão de morte constante não pode culpar palavras pelos seus sofrimentos, eles são em grande parte legítimos e dignos de empatia, porém não abuse da benevolência alheia.
Historicamente, os mais distintos povos, por diversas razões que não vem ao caso, tem cada vez mais feito um movimento pró-analítico em relação aos seus respectivos idiomas, digo, cada vez mais procuramos expressar cada coisa com os seus devidos morfemas separados ao invés de sintetizar como nas línguas indo europeias ou naquelas com matrizes menos extensas como navajo, quechua, náhuatl, etc. No português, em especial, há uma nítida "analitização", cada vez mais separamos a maior parte dos morfemas e alongamos as frases porque, aparentemente, soa mais sintático, mais inteligível. No português (brasileiro) falado, é bem capaz que você ouça com muito mais frequência "a gente vai pra praia" ao invés de "iremos à praia", entre outros exemplos práticos.
A defesa de uma reforma na língua portuguesa que introduza um gênero neutro — o que já não faz sentido para o português — e aglutine sinteticamente novos gêneros em cada palavra seria como uma regressão, além de ser um belo de um chover no molhado do ponto de vista fonético e gramático, afinal, "u" remete ao gênero masculino, portanto, "elu" (um dos pronomes propostos) seria entendido como um "novo" pronome masculino (O urubu, O cupuaçu, O umbu, todas palavras endêmicas, por sinal).
Eu tenho noção que os defensores desta bugiganga não são herdeiros de João Ribeiro e — segundo algumas palestras e artigos às quais tive acesso — percebo que não são herdeiros nem de um medíocre filólogo esforçado, não possuem quase nenhum conhecimento profundo sobre o português e traduzem maneirismos de linguístas militantes muito preocupados com palavras e pouco com ações concretas. São ideólogos, para a surpresa de ninguém.
E se "palavras matam pessoas" (outro dos tantos mantras chinfrins que nada dizem apesar da deificação de palavras),.muitos "excluídos" (povos originários, pretos, etc.) serão sumariamente assassinados por um arremedo militante levando em conta a absoluta influência do tupi bem como das línguas e dialetos africanos na nossa forma única de falar o português. Me dou a licença para entender: a minha luta é superior e tudo que a interpõe será aniquilado. E, novamente, ninguém encontra-se surpreso.

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