De novo a ameaça fascista



Pouquíssimos desde 2016 e menos ainda desde 2014 vem falando solitariamente que classificar Bolsonaro como fascista e o Bolsonarismo mesmo como um movimento fascista leva à diversas análises errôneas e comprometedoras e isso já está mais que provado, mas também leva ao fornecimento do mapa do tesouro aos liberais de esquerda.

A pauta do PT desde a prisão de Lula, em 2018, é de que temos que votar naqueles apoiados pelo lulo-petismo, secundarizando qualquer desavença, já que do outro lado se encontram os fascistas e, como está faltando pouco mais de um ano para as eleições, com o componente do julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe e a evidente tomada de posição do governo estadounidense a favor do ex-militar rebelde, a ameaça fascista voltou a se intensificar uma vez mais. 

Primeiramente, é preciso dizer que o fascismo aqui é uma definição aprioristica, já se tem certeza que os oponentes são fascistas, qualquer análise para provar essa tese vai ser só o caminho percorrido para chegar a um fim pré-estabelecido. Percebam que a pergunta nunca é "qual é o viés político-ideológico do Bolsonarismo?", mas sim "por que o Bolsonarismo é fascista?". Em segundo lugar, vemos a elevação da retórica (ou linguística) ao patamar de prática porque, de fato, é possível registrar uma retórica de tipo fascista dentro do Bolsonarismo ou mesmo vinda do próprio Bolsonaro, porém, a prática é absolutamente ordeira, nem mesmo é possível considerar um fascismo latente através dos fenômenos retóricos que sequer chegam a um atavismo notório, o que, aí sim, corroboraria aquela vulgaridade que tenta traçar paralelos entre o movimento fascista italiano e o suposto fascismo tupiniquim. 

Contudo, temos que entender por que esse fomento a uma espécie de "construtivismo retórico" se tornou funcional. É impossível estabelecer uma oposição clara entre a "resistência ao fascismo" e os pretensos fascistas no modo de governança prática, o "magnus opus" dos 6 anos de fascismo (considerando o golpista Temer) jamais foi sequer questionado, embora, de novo, na esfera retórica, o Lula prisioneiro tenha falado em revisão da reforma trabalhista, etc., se considerarmos que o conflito aqui se dar na esfera retórica tão somente, a tese do fascismo tem uma utilidade notável. Quem dúvida que o ataque ao BPC, aos pisos constitucionais da saúde e educação, entre outros movimentos práticos do governo vigente seriam tratados como arbitrariedades do fascismo se feitos há 4 anos atrás? 

Além de ser uma cosmogonia do liberalismo social a nível global, tendo uma ampla gama de trabalhistas, social-democratas, ambientalistas, etc., enquadrando uma série de governos e/ou movimentos que exibem um certo grau de transgressão a "normalidade" do Pós-Guerra. No Brasil, o fascismo, além de retórico, tem também um caráter de imanência, digo, é singular a um grupo como o DNA e a impressão digital a um indivíduo. Ora, só pode praticar fascismo quem é fascista, mas quem é fascista? Os opositores do lulo-petismo. E este leque é infinito, não se restringe ao Bolsonarismo, não é raro ler nos veículos lulo-petistas a acusação de que uma ou outra figura — até anti-bolsonarista — estaria "fazendo o jogo do fascismo"; tal atitude pode ser até mesmo uma crítica a inação prática do governo lulista em prol da derrubada de instituições do predecessor fascista. Ou seja, uma vez mais, a função da criação fictícia de uma ameaça fascista serve perfeitamente àqueles que perpetuam as práticas que jamais são chamadas de fascistas por razões óbvias.

O que se convém a chamar de fascismo no Brasil de hoje é meramente um mecanismo de defesa retórico do liberalismo de esquerda. Infelizmente, como não temos intelectuais fora da academia, que jamais tenham pisado em uma ou que não tentem reproduzir os maneirismo acadêmicos para se legitimar, é uma tese dominante, com plena aceitação e que deve durar enquanto a realidade estiver como está: dois lados políticos tentando administrar a podridão que, nos dizeres de Eduardo Prado, é própria dos túmulos e não dos berços.

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