O que é identidade é identitário?
Me parece óbvio que o primeiro condiciona o segundo. Mas o que é o primeiro? Focando apenas na história recente do conceito, que é o que interessa, existem duas interpretações: a positivista e a subjetivista. Qual seria o melhor exemplo da positivista? O próprio princípio jurídico do 'tertium non datur', ou da não contradição, do terceiro excluído, enfim, há vários nomes, mas, em síntese, ele afirma uma igualdade estática que não permite meio termo, ou algo é ou não é. Havia um filósofo sionista na primeira metade do século XX que se enveredava pela física chamado Émile Meyerson que definia que tudo era movido pelo princípio da identidade, ou seja, tudo era igual a si mesmo e a contradição era um erro. Essa é a identidade positivista.
Em contraposição, surge a identidade que não é mais estática, essa se refere às pessoas, por isso, duplamente subjetivista. Mas isso não é contraditório? Depende, essa identidade não é estática em relação a definição positivista, ela é estática em relação ao princípio de tudo ser igual a si mesmo, e nesse caso é tudo mesmo.
Um exemplo bem nítido vem do chamado construtivismo: sendo minha identidade X, minha percepção, minha intuição, meus sentidos, minha forma de pensar estão todos em consonância com essa identidade. Husserl escrevia "a verdade não é vivida naturalmente em nenhum outro sentido além daquele em que algo de ideal pode, em geral, ser uma vivência no ato real. Por outras palavras: a verdade é uma ideia, cujo caso particular é, no juízo evidente, uma vivência atual. O juízo evidente é, contudo, uma consciência de uma doação originária. (...) A vivência da consonância entre o visado e o que está presente em si mesmo, que ele visa, entre o sentido atual da asserção e o estado de coisas dado em si mesmo é a evidência, e a ideia desta consonância, a verdade. A idealidade da verdade constitui a sua objetividade. Não é um fato contingente que o pensamento de uma proposição, aqui e agora, está de acordo com o estado de coisas dado. A relação diz respeito antes ao significado idêntico da proposição e ao estado de coisas idêntico." Sem medo dos pedantes, podemos traduzir isso para a frase de para-choque de caminhão seguinte "o mundo que vejo não é igual ao mundo que você vê." (entenda mundo aqui como algo que inexiste externamente e o VER como um superpoder). Eu construo um mundo idêntico a minha identidade, você não pode dizer que ele não tem base histórica, por exemplo, afinal, as bases históricas que você fala não pertencem a minha identidade, a história portanto é, em si mesma, igual a identidade.
E onde entra o identitário nisso tudo? Eu posso está errado, mas a primeira vez que li o termo foi em Félix Guattari [identitaire], na década de 70, e é relativamente mais simples de explicar, o identitário é condicionado pela existência das identidades, como as políticas afirmativas e a inserção de "epistemologias alternativas" (alternativas às identidades e não a busca pelo conhecimento, claro) nas universidades. As identidades fomentam o identitário que tem o caráter político.
Entretanto, cabe dizer que Guattari faz duras críticas às identidades, mas a quais? Ora, às identidades estáticas, portanto, ele arranja outro nome "singularidades", Judith Butler, por outro lado, mantém "identidades", só que não mais estáticas. E o que seria esse estático? Homem e mulher hétero (isso para ficarmos nas identidades de gênero, objeto principal da autora). Butler também faz uma crítica ao Foucault que escrevia que uma mulher trans não pertence a uma identidade, mas obviamente Foucault estava se referindo a identidade estática, Butler diz que a mulher trans segue sendo uma identidade, só que de uma mulher trans. Butler destoa dos franceses nessa discussão devido a terminologia empregada e se conecta com Heidegger, que bem antes já havia teorizado sobre o que chamava de "identidade amorfa", é a mesma coisa que singularidades em Guattari e as identidades de Butler, são só nomes diferentes.
Qual o "fim" das identidades subjetivas? O indivíduo pura e simplesmente. Douglas Barros, que não faz a crítica às identidades, mas as aceita como uma verdade histórica, interpreta (como Asad Haider) que o grande problema das identidades é que elas precisam "recuperar a solidariedade e enxergar o Outro", ou seja, é um dever ser, mas é justamente isso que elas jamais farão, elas existem para negar a solidariedade e o Outro. Mesmo quando há uma expressão de aparência coletiva a fragmentação é constante, por isso, também, os predicativos se multiplicam, sem contar na fragmentação por hierarquização. Em alguma medida, podemos dizer que tem um quê de "Único" no sentido posto por Max Stirner, a identidade é um Uno, o seu dever ser só pode ser o asseveramento do individualismo. Não é uma questão de consciência ou pedagógica, é uma questão de essência, por assim dizer.
E é possível interpretar o mundo negando as identidades? É mais que necessário! começando pela crítica a própria ideia de que somos uma identidade, somos individualidades absolutamente cerceadas pela ausência real de liberdade, nada é para nós, não será através de um identitarismo legalista ou epistemológico que nos tornaremos mais livres, ao contrário, isso tem se mostrado um grande sucesso para a manutenção do status quo. Só podemos falar em identidades quando houver algum grau de emancipação da humanidade. Dentro do capitalismo, identidade é uma ideologia pequena-burguesa ultra-individualista sempre.

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