A filosofia estadounidense


No purgatório de Dante, Marco exaltava que os dois sóis de Roma eram Deus e o Estado, possibilitando a ação do sacrossanto Direito, e é possível dizer que esse cânone é o ponta pé inicial de todos os Estados desde o Renascimento. Mesmo aqueles atrasados tiveram que passar pela idolatria do Direito — como a desfuncional forma que esse assume na Alemanha previamente a primeira unificação —, para daí sim entrar em sua fase "moderna". Com os EUA não foi diferente, a grande questão é que os EUA não fez um processo de cortar o cordão umbilical entre a pré-modernidade e a modernidade, ele metamorfeou as formas pré-modernas tão pragmaticamente que seus pares anglicanos passaram a soar como poetas a meditar sobre a natureza apenas para descrevê-la dramaticamente. O resultado que sucedeu é que os dois sóis continuaram brilhando nos céus estadounidenses, são eles: o dinheiro como Deus e o lucro como Direito.

"Senhores, durante séculos a Inglaterra utilizou o protecionismo, levou-o ao extremo e obteve resultados satisfatórios. Não há dúvida de que deve seu poder atual a esse sistema. Após esses dois séculos, a Inglaterra considerou apropriado adotar o livre comércio, considerando que a proteção não lhe proporciona mais nada. Pois bem, senhores, meu conhecimento do meu país me leva a crer que, dentro de duzentos anos, quando os Estados Unidos tiverem obtido do regime protecionista tudo o que podem dar, adotaramos firmemente o livre comércio." (General Grant, Manchester, 1897)

Esta declaração é a perfeita síntese do pensar estadounidense. 

A soberania, suplantando a democracia, sempre foi um valor muito buscado pelos primeiros espíritos pensantes daquela nação. Apesar disso, ainda se tratava da "Nova Inglaterra" e a busca pela soberania tinha o caráter defensivo ou ofensivo contra o Império Britânico. Aquilo que Tocqueville chamava de "a tirania da maioria" era justificada moralmente por inúmeros filósofos pré-Guerra Civil, afinal, não bastava apenas um desejo por soberania, mas uma efetiva prática soberana, portanto, é difícil encontrar um momento preciso em que o pensamento estadounidense ficou peregrinando somente no reino das ideias como seus pares europeus, por isso, o constante ancoramento nas massas.

Com a Guerra de Secessão e mesmo antes dela, os filósofos estadounidenses, em geral do norte, buscavam formas de combater a filosofia britânica mais compartilhada entre os pouquíssimos intelectuais sulistas. Portanto, os ianques ficaram cativos do idealismo alemão, muitos chegaram a ir para Alemanha para estudar in loco toda aquela produção filosófica em escala industrial que precede a unificação. Mas rapidamente perceberam a incompatibilidade pois o odioso positivismo britânico era muito mais condizente com a sociedade estadounidense que o idealismo alemão que, entre outras coisas, era ultra-ceticista e especulativo, a despeito da celebre crítica de Goethe, autor tão prestigiado pelos idealistas: “um especulador é como um animal num campo seco, vagando por aí, seduzido por um espírito maligno, enquanto ao redor há belos pastos verdejantes.” Entretanto, os estadounidenses estavam dispostos a fazer concessões, o moralismo parecia carcomido demais para as ambições do gigante de sete léguas: poderia haver especulativismo? Sem dúvida, desde que guiado por uma espécie de naturalismo darwinista, ou seja, uma teleologia natural. Poderia haver transcendentalismo? Sem dúvida, desde que fundado no engenhoso e produtivo indivíduo independente, como em Henry Thoreau.

Com o fim da Guerra de Secessão e a vitória do norte, o praticismo se torna dominante. Rhett Butler da Margaret Mitchell (sem a "Lost Cause" interferindo) é o ideal de homem americano a ser buscado, aquele que se move e é movido pela riqueza, um sujeito não menos intragável que a amada Scarlett que traz, também, a ascensão da mulher como uma figura "masculinizada", quer dizer, livre para trabalhar, muito em voga durante a ascensão do feminismo. A filosofia moral, anteriormente dominante na sociedade estadounidense, portanto, é levada pelo vento e nasce pragmatismo estadounidense. 

Contudo, o fato de a filosofia estadounidense ser gestada pela filosofia europeia não significa que ela não tenha características próprias e decisivas que expõem o seu caráter nacional. É subestimar demais a filosofia estadounidense, que é dominante, fazê-la uma mera copia. O grande diferencial dela, porém, é que seu corpo teórico, embebido em tudo de pior que produziram franceses e alemães, inclui o utilitarismo e o pragmatismo como ponta de lança, o que de fato já se faz presente na filosofia britânica. Por outro lado, esses dois "critérios" são rejeitados, diria mais, condenados pela filosofia dominante francesa e alemã, pela última desde sempre, pela primeira desde que o país se estabeleceu e se estabilizou, antes disso havia um caráter ultra-legalista na França que impõe o viés positivista; já os alemães, devido as próprias características de fraturas nacionais e atrasos contínuos, sempre submeterem o Direito a metafísica e não o oposto. 

A filosofia estadounidense, assim como a religião maometana, se aproveita de tudo que lhe convém de seus predecessores, cortando aquilo que lhe é inútil (o pessimismo, por exemplo) e potencializando aquilo que lhe é funcional (o pragmatismo, por exemplo). Obviamente não de maneira arbitrária, mas através das exigências impostas pelas próprias condições nacionais e sociais dos EUA a partir do final do século XIX, que é o período em que se pode considerar que há uma filosofia estadounidense efetivamente, muito embora a sistematização de fato atinja outro patamar somente após a Segunda Grande Guerra, com as universidades estadounidenses, inclusive, convidando grandes filósofos europeus para ir dar curso, palestras e até morar lá. É quase impossível encontrar um filósofo europeu no pós-guerra que não tenha pisado nos EUA ao menos uma vez. Na primeira metade do século XIX, ironicamente, eram os estadounidenses que iam estudar na Europa. Não era uma coincidência, era a exposição de uma nova configuração da ordem mundial.

O domínio da filosofia estadounidense passa pelo domínio político-econômico dos EUA como é nítido, pois se a qualidade "epistêmico-teórica" fosse uma exigência imprescindível, a filosofia estadounidense não teria saído nem dos campus das universidades porque é de uma pobreza que assusta. Isso não lhe faz menos forte e se fizesse não mudaria muita coisa. O cinema, a música entre outras "artes" transmutadas em mercadorias, que os EUA jamais avistou concorrentes desde que as dominou, auxiliam a filosofia estadounidense, traduzida e sintetizada, a se espalhar como gripe. É interessante notar que esses atributos também são comuns aos britânicos, mas sempre de maneira limitada pela própria posição subserviente do país. Nenhum pensador estadounidense teria coragem de negar que os EUA fizeram inúmeras assimilações britânicas — até o estilo literário, nos dizeres de Maria Carppeux, pobre e direto como um soco típico dos anglosaxônicos — porque é evidente, porém esse pensador hipotético sabe bem que a competição é tão injusta que ele fala de um ponto de vista "americocentrista", guiado pelo espírito do "self-made man".

Considerando que o super-racionalismo, na sua forma ultra-empirista típica do pragmatismo, leva ao super-naturalismo, hoje, a filosofia estadounidense passa por um processo de decadência — para ser mais preciso, o processo já dura algumas décadas —, não no sentido "ordinário" do termo, mas no sentido sprengleriano, por assim dizer, ou seja, uma elogiosa e funcional decadência, isso porque a própria sociedade estadounidense passa por um processo de decadência literal. 

A testa de ferro dessa decadência é o pós-modernismo. Um de seus mais prolixos papas, o novaiorquino Richard Rorty se orgulha pelo fato de os pensadores estadounidenses terem superado o realismo tão caro aos britânicos, pudera, para os estadounidenses não há mais necessidade de intervir na natureza, eles a definem. E é dever dos filósofos da ordem normalizarem essa decadência e tentar glamourizá-la, para isso, o "new pessimism" (pessimismo) parece ser algo latente pela primeira vez na terra do Tio Sam. Levando em consideração que a história só se repete como tragédia, tudo parece indicar que a filosofia estadounidense caminha para o mesmo buraco onde cairam aquelas europeias que tanto lhe foram úteis nos momentos de conformação de um pensar nacional. Talvez isso indique uma queda no precipício dos EUA mesmo como a potência dominante. Só o futuro nos dirá.

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