"Eternas" vítimas do capital
No Japão, uma das formas "masculinistas" criadas em resposta às conquistas das mulheres pós-Segunda Guerra está no que eles chamam de "lolicon" (abreviação para complexo de Lolita), ou seja, ultra-infantilização de mulheres e até mesmo a substituição de mulheres reais por bonecas, desenhos ("animes") e personagens 2D em geral que, justamente por serem representações de crianças e pré-adolescentes não possuem nenhum tipo de altivez e, claro, por serem fictícias não possuem nenhum tipo de vontade própria, tornando a hipostasia dos fetiches algo dependente apenas do poder aquisitivo. No Ocidente, por outro lado, nunca se abandonou as mulheres reais (não de maneira generalizada como no Japão) e é possível dizer que há um processo invertido no "modelo ideal" de mulher, ou seja, a adultização de crianças, bem como um nítido processo de seletividade e convencimento de tipo conservador-comportamental, quer dizer, um processo de selecionar as mulheres "boas" por serem submissas e convencer as que não são de que deveriam ser para finalmente conseguirem ter um relacionamento, construir uma família. Aí está a função dos incels, redpills e afins. Esses nichos, para além de mera profusão de misoginia, seguem, querendo ou não, aqueles mesmos princípios dos japoneses de focar em mulheres mais jovens que podem, assim, serem mais facilmente submetidas e modeladas. E se toda essa insensibilidade denota um caráter dantesco como tal é porque no escaldante rio do submundo os maiores pecadores estão dentro do barco. A miscelânea de desejos patológicos recalcados em prol de assegurar a infância soa como um desvio de conduta do Estado que se torna o vergugo dos verdugos.
Contudo, as teses pedófilas que poderiam servir ao propósito dessa "reação masculinista" nunca tiveram muita aceitação no Ocidente como no Japão, apesar dos esforços contra a "decência pública" de totens da escola de Kyoto, como Foucault, todas as teses foram sumariamente derrotadas por aqui, por quê? Não sei dizer, talvez porque a cultura japonesa privilegie mulheres com certas características mais comuns à crianças desde o Período Edo (XVI — XIX), como a docilidade, a inocência, pele delicada, etc., no Ocidente não necessariamente isso são características "ideais" para uma mulher se tornar "atrativa". Talvez porque a Tempestade de Agosto, não apenas Hiroshima e Nagasaki, tenha transformado o Japão numa Aokigahara em forma de país com sequelas que parecem crônicas, assim sendo, o desejo pela autodestruição daquele povo imerso naquela melancolia distópica urbana não encontra interpelação de freio moral algum. Talvez porque os movimentos reacionários "masculinistas" ocidentais sejam ultra-moralistas cristãos enquanto os japoneses são shinto, o qual aproxima seus devotos mais de um "ateísmo ritualizado" do que de uma doutrina teísta mergulhada em dogmas ético-morais. Enfim, aí eu só estou chutando mesmo, pode ser tudo isso ou nada disso.
Fato é, essas novas formas de ódio às mulheres, que inexoravelmente respingam na infância, residem fundamentalmente na impossibilidade dos homens contemporâneos serem provedores, por outro lado, com os índices de desemprego atuais — em todos os lugares —, não vejo muitos podendo ser provedores de nada, independentemente do sexo, gênero, cor ou nacionalidade. Além disso, não foram as mulheres, em sentido algum, que provocaram esse cenário, não é preciso dizer que sejam até mesmo as mais afetadas proporcionalmente falando junto aos demais grupos estigmatizados.
O que o feminismo — que exala o espírito burguês da igualdade de exploração — diz neste debate? Segue no monólogo moralista de homens contra mulheres em meio a uma plétora anti-patriarcal indeterminada (isso se nos limitarmos apenas aos feminismos dignos de serem levados a sério). Embora possa aceitar aquele último parágrafo como plausível, feminismo nenhum jamais aceitará que o problema é o modo de produção, afinal, foi o feminismo o maior defensor do sufrágio universal dentro dessa anarquia que é o capitalismo que, por sua vez, torna os conflitos interclasse cada vez mais intensos conforme a massa de desempregados é sempre maior que a última e que, com as mulheres inclusas, a forma como são feitas de alvo é igualmente pior a cada crise porque elas, acima de tudo, são, agora, também concorrentes no mercado de trabalho.
Cabe lembrar, claro, que o medidor moral e ético desse mercado é o lucro e se a "decência pública" for deixada única e exclusivamente nas suas "mãos invisíveis", se cumprirá o desejo de Foucault e não serão só as crianças a serem vitimadas. Portanto, não só se deve defender implacavelmente a criminalização e a punição de toda e qualquer parafilia como, também, avançar rumo à uma sociedade em que todos possam exercer suas capacidades, independente do gênero, e onde a infância seja salvaguardada a qualquer custo.

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