Esquerda e direita contra a história
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| Lidiya |
O anti-historicismo de esquerda, que se reinvindica anti-eurocêntrico, é tão metafísico quanto o último, além de possuir o mesmo caráter aristocrático. Isso pode ser verificado através da subsunção de "fatos" com a justificativa de possuir um posto "natural" capaz de revelar a verdade quase que por prestidigitação, sem nem mesmo influir uma investigação, a verdade é mera "visão de mundo" que só os mágicos aristocratas possuem: "cada vez mais se espera que os historiadores de origem africana escrevam sua história e o façam com a narrativa que julgarem mais apropriada." (Tiago Luís Gil, história e historiografia da escravidão no Brasil). E a metafísica se dar a partir da afirmação de uma História, que se opõe a História supostamente eurocêntrica, é claro, mas jamais sob uma base material. É uma oposição linguística e não substancial. Se aventura também através infantilidade de brigar com fatos históricos concretos exaustivamente revisados e documentados, por quê? Porque simplesmente discordam deles e como tudo é resumido a discurso (narrativa), esses fatos seriam meros discursos que negamos. A micro-história é necessária justamente porque, a partir do ceticismo histórico — ou seja, que é impossível conhecer a história — podemos nos focar no possível que são as pequenas histórias e, a bel-prazer (relativismo), fazer saltos sincrônicos e diacrônicos, analogicamente como o "efeito borboleta", só que muito mais sofistidado que a antiga tese da causa-efeito, porém, com o mesmo princípio.
É uma fórmula de constructo fictício! Se quisermos ser mais condescendentes, é "teoria da conspiração" que significa lapsos de verdades estruturadas por uma grande mentira. Felizmente (ou infelizmente) há alguns autores que admitem que é ficção, embora sejam obrigados a transvalorizar o termo tal como Wittgenstein transvaloriza a lógica para torná-la ilógica. Ora, quem disse que ficção é uma invenção artística, uma realização imaginária? É só mais uma forma de narrar a realidade, o fato de que o que é narrado não encontrar vitalidade, correspondência e validade na própria realidade é porque a própria foi parida pela historiografia eurocêntrica. Mehmed II não invandiu Constantinopla e derrubou a última fortaleza de Roma, isso não aconteceu, claramente o que se passou foi a escrita de uma trama trágica de tipo shakespeareano. E quanto mais distante no tempo, melhor fica, afinal, somos capazes de descrever com riqueza de detalhes o pré-cambriano, mas precisamos tresvariar como era há 1000 anos atrás, principalmente quando o que já temos não está de acordo com minhas posições, como escrevia Sartre, daquilo que não é para mim, eu sou seu escravo, minha libertação reside em tomar para mim. É um ódio tão visceral pela verdade que se tornam escravos de mentiras agradáveis (o que é uma redundância, por sinal, uma das funções mais antigas da mentira é ser agradável.)
Por mais que aparente uma fragmentação do anti-historicismo, não é proposital, o tema é tão extenso que levaria horas somente para desenvolver uma introdução digna de tal nome, a qual muito provavelmente deveria partir do mais perigoso ao menos perigoso, afinal, existe um tipo de anti-historicismo dentro do que se chama esquerda que é bem mais problemático que aquele que a luz do dia mais procura, esse diz a que veio relativizando o espaço e o tempo e contemporaneizando absolutamente tudo. É legítimo considerar a história como "uma outra maneira de filosofar" como dizia Francis Bacon ("alia ratio philosophandi"), entretanto, pensar para fazer história não basta, muito menos abdicar do colosso material que estrutura um dado acontecimento, se escolhe fazê-lo, a história já se tornou secundária, quiçá, a própria filosofia e entramos na poesia.
À Direita
"Também não importa saber se o sentido deve emergir da totalidade da História, como teleonomia imanente ao corpo do acontecer, ou se, numa História sem nenhum significado de conjunto, o único sentido possível há de residir na moralidade exemplar dos atos individuais que respondam a uma finalidade supramundana (como, por exemplo, no budismo). Como quer que os interpretemos, sentido, finalidade e valor são uma só e mesma coisa. Ou existem, ou não existem. E, para que existam, é preciso que sejam para nós e, em princípio, para todos os homens — caso contrário, o sentido de um será o nonsense de outro." (Olavo de Carvalho, O futuro e o pensamento brasileiro)
Olavo foi o cara que trouxe a ficção como história para o lado da direita brasileira abertamente quando escrevia para diversos veículos da imprensa tradicional desde os finais dos anos 80 em que seu principal alvo eram os fatos, em geral referentes a ditadura brasileira que ele cismava em declarar como vítima do "charlatanismo histórico marxista". De novo, a mesmíssima tática de personalizar a narrativa histórica e simplesmente excluir a mera possibilidade de analisar se são ou não factuais os acontecimentos narrados.
Olavo teve uma percepção muito perspicaz, ao invés de seguir a lógica do conservadorismo britânico que, ao seu modo, combate o relativismo se munindo de um tradicionalismo que reinvindica uma pretensa Razão, ele entendeu que a esquerda [antimarxista] tinha o monopólio de uma potente arma retórica e passou ele mesmo a fazer uso dela traduzindo a mitologia já pertencente a direita estadounidense que, muito devido ao macarthismo, já havia superado a luta pela racionalidade como bandeira do conservadorismo e já havia abraçado mitos para chamar de seus: nazismo de esquerda, os golpes salvaram a América-Latina do comunismo, doutrinação marxista nas escolas e universidades, etc.
Se, no pós-Grande Guerra, o anti-historicismo era dominante dentro dos movimentos "socialistas" franceses, alemães, trabalhistas ingleses, etc., nos EUA sempre foram neutros (neutralidade pouco neutra no que se refere ao uníssono combate ao marxismo, diga-se de passagem) e é por isso que Olavo pinça um irracionalista conservador ou outro europeu, mas sua base é quase totalmente estadounidense e não poderia ser diferente.
Entretanto, a efetividade evidente do Olavo não seria mais que uma coleção de livros e artigos com mínima repercussão na realidade sem o advento da derrocada do modelo lulopetista condicionando a direita reacionária a se tornar uma força política graúda que passou a ditar a pauta. Por muitos anos, parecia que era a esquerda [ANTIMARXISTA!!!] que lutava pela ciência e pela verdade contra o irracionalismo olavista, quando ela mesma estava no calabouço fazendo suas próprias "narrativas plurais" ao estilo balzaquiano: "pouco me interessa perder tempo em sociedade, prefiro criar sociedades." — a diferença é que é mais possível se encontrar fatos históricos em Balzac que no mais novo best-seller de humanas.
Em sentido epistêmico, principalmente em relação a história, Olavo não estava na contramão da esquerda, talvez mereça até mais créditos pela vitória do anti-historicismo devido a sua influência ter saído das estéreis torres de marfim.
Não é nada complicado fazer essa declaração após ler alguns materias do Olavo, muito embora ele fosse intransigente quanto a esquerda ou aquilo que ele acreditava sê-lo de esquerda (normalmente coisas dissonantes), como na sua crítica ao Richard Rorty, autor cujo eu tenho pouquíssimas dúvidas que Olavo possuía mais concordâncias que discordâncias, bastava o pai do pós-modernismo estadounidense se declarar Republicano que talvez o velho de Richmond teria virado a casaca.

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