Contra o nacionalismo

 



Os nacionalistas estão cobertos de razão em abominar o criterioso socialismo científico que morre com Lenin. Não existe heresia maior para a burguesia que a negação da Nação (explicita no russo) que é, no "momento constitutivo" do capitalismo, o primeiro filho bastardo, tão bastardo que até hoje não se sabe quem é o pai.

A questão, em essência, é que a Nação não é para todos, é para todos conforme todos andem em direção a um objetivo particular de um grupo particular. Mas a Nação nega tal desintegração e assume o caráter de um Povo, o que é esse Povo? A Nação, o que é a Nação? O Povo, como determinamos esse Povo? Não determinamos, suas diferenças possuem um viés superficial, na linguagem filosófica, natural, no mais, o Povo é um Uno. 

A pergunta que fica é, se sem povo não há Nação, sem Nação há povo? Por certo Demóstenes não cometeu suicídio porque as pólis estavam em vias de extinção e Atenas se tornava um pária até os nossos dias, os curdos seguem vivos e se multiplicando mesmo sem Nação, então, a quem serve a Nação?

Na medida em que nos encontramos diante destes impasses invioláveis, porque são dogmas, não resta dúvida que o nacionalismo é um claro alvo da classe trabalhadora ao mesmo tempo que é incompatível com sua emancipação pois a Nação só existe em detrimento de um Povo que, ao ser determinado, não é um Uno coisa nenhuma, aliás, seu fracionamento é total. Assim sendo, floresce um grupo unilateralmente beneficiário dos benefícios da Nação. O nacionalismo, portanto, é a luta pelos privilégios desse último e o desejo de que caiam algumas migalhas deste banquete.


Trecho de V. I. Lenin, obras completas, tomo 25, ppp. 290-91-92 


'Sobre o direito a autodeterminação das nações'

Dar a resposta "sim ou não" à questão da separação de cada nação? Isto parece uma reivindicação extremamente "prática". Mas na realidade ela é absurda, metafísica no plano teórico, e na prática conduz à subordinação do proletariado à política da burguesia. A burguesia coloca sempre em primeiro plano as suas reivindicações nacionais. Coloca-as incondicionalmente. Para o proletariado elas estão subordinadas aos interesses da luta de classes. Teoricamente não se pode garantir antecipadamente que a separação de uma nação determinada ou a sua situação de igualdade de direitos com outra nação finalizará a revolução democrático-burguesa; para o proletariado é importante em ambos os casos garantir o desenvolvimento da sua classe; para a burguesia é importante dificultar este desenvolvimento, afastar para segundo plano as tarefas dele face às tarefas da "sua" nação. Por isso o proletariado se limita à reivindicação, por assim dizer, NEGATIVA [отрицательным] de reconhecimento do direito à autodeterminação, nada garantindo a nenhuma nação, não se comprometendo a dar nada à custa de outra nação.

Talvez isto não seja "prático", mas de fato isto é o que melhor garante a mais democrática das soluções possíveis; o proletariado necessita apenas destas garantias, enquanto a burguesia de cada nação necessita de garantias das suas vantagens sem ter em conta a situação (as possíveis desvantagens) de outras nações.

O que mais interessa à burguesia é a "exequibilidade" de uma reivindicação dada — daí decorre a eterna política de pactuação com a burguesia de outras nações em prejuízo do proletariado. Enquanto para o proletariado é importante fortalecer a sua classe contra a burguesia, educar as massas no espírito da democracia consequente e do socialismo.

Talvez isto não seja "prático" para os oportunistas; mas isto é a única garantia de fato, uma garantia da máxima igualdade de direitos e da paz nacionais a despeito tanto dos feudais como da burguesia nacionalista.

Toda a tarefa dos proletários na questão nacional é, do ponto de vista da burguesia nacionalista de cada nação, "não prática", pois os proletários reivindicam uma igualdade de direitos "abstrata", a ausência por princípio do mínimo privilégio, sendo inimigos de qualquer nacionalismo. Não compreendendo isto, Rosa Luxemburgo, com o seu insensato enaltecimento do praticismo, abriu as portas precisamente aos oportunistas, principalmente às concessões oportunistas ao nacionalismo grão-russo.

Por que grão-russo? Porque os grão-russos na Rússia são a nação opressora, e no aspecto nacional, naturalmente, o oportunismo manifesta-se diferentemente nas nações oprimidas e nas opressoras.

A burguesia das nações oprimidas chamará o proletariado a apoiar incondicionalmente as suas aspirações em nome do "carácter prático" das suas reivindicações. O mais prático é dizer abertamente "sim" à separação de tal ou tal nação, mas não ao direito à separação de todas e quaisquer nações!

O proletariado opõe-se a tal praticismo: reconhecendo a igualdade de direitos e o direito igual ao Estado nacional, ele valoriza e coloca acima de tudo a aliança dos proletários de todas as nações, valorizando do ângulo da luta de classe dos operários toda a reivindicação nacional, toda a separação nacional. A palavra de ordem de praticismo é de fato apenas a palavra de ordem de aceitação não crítica das aspirações burguesas.

Dizem-nos: ao apoiar o direito à separação, apoiais o nacionalismo burguês das nações oprimidas. Assim fala Rosa Luxemburgo, assim repete ao lado dela o oportunista [Semen] Semkovski, o único representante, diga-se de passagem, das ideias liquidacionistas nesta questão no jornal dos liquidacionistas!

Nós respondemos: não, é precisamente para a burguesia que é importante aqui a solução "prática", ao passo que para os operários é importante a separação de princípio das duas tendências. Na medida em que a burguesia da nação oprimida luta contra a opressora, nessa medida nós somos sempre e em todos os casos e mais decididamente que ninguém a favor, pois nós somos os inimigos mais audazes e consequentes da opressão. Na medida em que a burguesia da nação oprimida defende o seu nacionalismo burguês, nós somos contra. Luta contra os privilégios e as violências da nação opressora e nenhuma tolerância para com a aspiração aos privilégios por parte da nação oprimida.


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